13 de julho de 2014  

Índios


Inaugurada Escola de Xamãs no Rio Aiari, na Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)
[22/12/2009 12:27]


Perseguidos historicamente e correndo o risco de serem extintos, os xamãs Baniwa ganham espaço, com a inauguração da escola, para continuar a realizar suas práticas livremente e transmitir sua cosmologia e sabedoria às novas gerações.


Mandu, o "xamã jaguar" fala durante a inauguração da escola. À esquerda, o antropólogo Robin Wright

Em 30 de novembro, na aldeia de Uapui Cachoeira, nas cabeceiras do Rio Aiari, afluente do Rio Içana, no noroeste do Estado do Amazonas, realizou-se um encontro de comunidades Baniwa, para a inauguração de uma escola de xamãs, Malikai Depana. Fundada pelos filhos do principal xamã dos Baniwa, Manuel da Silva, Mandu, com apoio do antropólogo Robin Wright, a cerimônia contou com a presença do presidente da Funai, Márcio Meira. A escola é fruto de anos de pesquisa patrocinada pela Fundação para Estudos Xamânicos, que fica na Califórnia (EUA), interessada em apoiar a arte e a prática do xamanismo tradicional. Wright trabalha com as comunidades do Rio Aiari e especialmente com a família de Manuel da Silva, desde 1976.

Escola de Xamãs no Alto Rio Aiari

Diferentemente de projetos de medicina tradicional implantados nas comunidades do Rio Içana - onde os índios se tornaram agentes de saúde desde os anos 1980, mesclando seus conhecimentos de plantas medicinais com a medicina ocidental - a escola de xamãs recebeu apoio da Fundação para Estudos Xamânicos, que é coordenada pelo antropólogo norte-americano Michael Harner, e dá ênfase à transmissão da cosmologia e metafísica da sabedoria dos xamãs, que por anos vêm sendo vítima de atritos e correm o risco de serem extintos.

A história dos xamãs

Entre os povos indígenas do noroeste amazônico, os xamãs têm exercido historicamente papel fundamental na sobrevivência contra doenças e outras calamidades provocadas pelo contato com as civilizações ocidentais. Entretanto, no decorrer do século XX, os "xamãs jaguar" entre os povos Tukano e Baniwa que vivem na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Colômbia, sofreram perseguições por parte da Igreja Católica e de missionários protestantes, forçando-os a buscar, frequentemente, refúgio em outras regiões. Como as antigas malocas, que serviam como lugar para seus cerimoniais, os "xamãs jaguar" eram considerados encarnação do diabo ou de satanás, no dizer dos evangélicos. Aqueles que não conseguiram escapar das perseguições deixaram de viver em áreas de acesso difícil ou abandonaram suas práticas para se converter ao evangelho.

Entre os povos Baniwa, de língua Arawak, com uma população de cerca de 12 mil pessoas, só em regiões remotas é que os "xamãs jaguar" continuam com suas práticas. Controlaram epidemias que assolaram a região durante o boom da borrada no século XIX e XX - somente em regiões remotas os "xamãs jaguar" continuam com suas práticas. De acordo com as histórias orais dos Baniwa, foram várias as catástrofes que dizimaram seu povo, mas os extraordinários poderes dos "xamãs jaguar" afastaram os inimigos e mantiveram a estabilidade do mundo.

O projeto e seu desenvolvimento

Um dos objetivos iniciais do projeto "Escola de Xamãs" do Alto Aiari foi promover a medicina tradicional, especialmente entre os mais jovens, mas não no sentido de treinar agentes indígenas de saúde ou introduzir o cultivo de plantas medicinais em suas terras, como o fizeram as comunidades do Rio Içana em colaboração com a Universidade Federal do Amazonas. Nesse caso as lideranças evangélicas tem um interesse muito pequeno no conhecimento metafísico dos “xamãs jaguar”.

O xamã baniwa do Alto Aiari, Manuel da Silva (Mandu), foi reconhecido como "Tesouro Vivo" em reconhecimento aos seus conhecimentos ancestrais. A Fundação paea Estudos Xamânicoslhe concedeu um certificado e uma pequena pensão anual. Mandu e seu irmão Mário agora são dirigentes da escola, freqüentada por doze jovens aprendizes.

Certificado da Fundação para Estudos Xamânicos confere à Mandu o prêmio \"Tesouro Vivo\"

A construção da escola

Malikai Dapana, a Casa do Conhecimento Xamânico foi construída no estilo das malocas tradicionais, em um trabalho árduo que durou meses envolvendo as comunidades do Rio Aiari. O trabalho foi coordenado por Alberto da Silva, filho de Manuel, e a coordenação financeira ficou a cargo da filha Ercília, também secretária da nova escola. A festa de inauguração se estendeu por dois dias – 30/11 e 1º/12 - e contou com a presença do presidente da Funai, Marcio Meira, que se reuniu com as comunidades e delas ouviu demandas específicas. Houve apresentações de professores da escola e de danças pelos aprendizes, como o dabukuri e foi servido caxiri, bebida fermentada obtida da mandioca, além de frutas como o açaí e batata doce.

Mas o destaque foi a dança dos xamãs. Mandu, seu irmão Mario e os doze aprendizes se postaram em frente à maloca, pegaram seus instrumentos e colocaram delicadamente no chão. Mandu colocou o colar de dentes de jaguar - o maior símbolo de prestígio e poder do "xamã jaguar" - e Mario, seguindo as instruções de Mandu, deu pariká aos aprendizes para que cheirassem. Depois, fumaram um charuto espalhando a fumaça sobre os aprendizes como forma de proteção. Mandu e Mario iniciaram seus cantos e foram seguidos pelos aprendizes.

Na manhã do dia seguinte, Mandu recebeu o prêmio "Tesouro Vivo" e os aprendizes receberam do antropólogo Robin Wright, um álbum com fotos de todos os xamãs Baniwa do noroeste amazônico, que ele conheceu, e ainda fotos de um dabukuri ocorrido em 1959. A escola da aldeia ganhou um álbum com reproduções de mapas antigos, desenhos, fotos das primeiras comunidades Baniwa e suas famílias, de 1920 aos dias de hoje.

Continuando as apresentações, Mandu falou sobre esse momento para refletir sobre o que mudou da vida de todos desde os tempos das malocas. As danças e rituais retomados agora lembravam seu povo de que as tradições dos ancestrais ainda estão vivas, que estes costumes não devem ser esquecidos. Mandu disse também que hoje o risco é que cada um aja em seu próprio interesse, com muito individualismo. Agora com a escola de xamãs, as pessoas estarão conectadas com suas tradições, com seus ancestrais.

Para Robin Wright, que foi um dos mentores do projeto, ainda há muito o que fazer."Nós nos comprometemos a buscar novas fontes de recursos para completar a construção da maloca, criar novos programas (como cursos de arte xamânica) e explorar formas nas quais o conhecimento biomédico ocidental e a metafísica do “xamanismo jaguar” possam se beneficiar reciprocamente".

(com base no texto original de Robin M Wright)

 

ISA, Instituto Socioambiental.