22 de julho de 2014  

Brasil


Ameaças de morte levam líder Suruí a pedir proteção à Secretaria de Direitos Humanos
[30/06/2011 11:12]


Ameaçado de morte em sua terra, reconhecido como herói de seu povo por organismos internacionais, Almir Suruí, tinha só 17 anos quando foi eleito um dos líderes dos Paiter Suruí. A escolha confirmava o reconhecimento pela sua precoce e incisiva preocupação com a atuação dos madeireiros que invadem as terras indígenas e ameaçam a sobrevivência dos povos da floresta. Agora, aos 36 anos, o herói está com medo.


Almir recebe prêmio em Genebra, indicado pela Sociedade Internacional de Direitos Humanos

No primeiro contato com os brancos, em 1969, os Suruí eram cerca de 5 mil pessoas, segundo relato dos mais idosos. Bastaram três anos de proximidade com os “civilizados” e a sua gente foi reduzida à metade. No início dos anos 1980 eram apenas 290 pessoas. Com a atuação das novas lideranças, a partir da década seguinte, essa realidade foi modificada e a população Suruí voltou a crescer. Hoje é de cerca de 1.300 pessoas. Suas 25 aldeias se espalham por territórios nos municípios de Cacoal (RO) e Aripuanã (MT).

Mas, a invasão de madeireiros na região se agravou. A Associação Metareilá dos Povos Indígenas Suruí, apoiada por organizações socioambientalistas locais, como a Associação Kanindé de Defesa Etno-Ambiental e a Proteção Ambiental Cacoalense (Paca) iniciou em 1988 ações para pôr fim a essa exploração ilegal da madeira nas terras indígenas.

Em 1992, eleito líder pelo Conselho dos Suruí, Almir passou a conversar com os outros líderes. “Eu queria que eles entendessem que apoiar madeireiros significava apoiar nossa própria extinção. Em alguns anos, acabaria a floresta, acabariam nossas terras, nossa alimentação, nossa cultura, nosso idioma... Iríamos atrair mais madeireiros, haveria mais invasões do nosso território”, relembra.

O resultado positivo dessa campanha começou a aparecer. “Alguns líderes concordaram e passaram a conscientizar sua gente nas aldeias.”

Índios aliciados

Ocorre que, além das doenças e do alcoolismo, os madeireiros levaram também aos indígenas o aliciamento, o suborno, para que permitissem a derrubada de árvores em suas terras. “Em troca da concordância de alguns líderes, os madeireiros lhes davam dinheiro e até automóveis”, revela o cacique, que esteve por duas semanas em Brasília em busca de proteção à sua vida e à de outros líderes Suruí junto à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).

Mesmo alguns Suruí se renderam ao aliciamento e rejeitaram a pregação de Almir, acusando-o de atrapalhar seus negócios. “Não só os Suruí, mas todos os povos indígenas da região se envolveram na venda ilegal de madeira, inclusive com apoio de funcionários da Funai a partir de 1987”, afirma.

Resistência provoca ameaças

O cacique diz que tem sido necessária muita persistência para reverter a situação. É essa resistência que provoca ira e ameaças. Uma delas ocorreu durante o desfile de 7 de setembro de 2009 em Cacoal. Almir estava no desfile quando um sujeito aparentemente embriagado se aproximou e perguntou:

– Você é o Almir Suruí?

Diante da confirmação, o desconhecido disse:

– Odeio você.

Almir perguntou ao desafeto quem era ele.

– Eu sou eu mesmo – disse o estranho, que se afastou fazendo gestos como se apontasse um revólver para o cacique. Naquela semana, o líder indígena havia feito nova denúncia de corte ilegal de madeira na região.

Como ele reage às ameaças?

– Sou humano. Tenho medo, tenho família, tenho vontade de viver. A gente abraça um projeto que a gente pensa que é certo e aí vem essa gente e diz que vai matar. Então, a gente assusta. E fica a dúvida, será que estou errado? Será errado defender nossas florestas, nossa gente, nossa cultura?

Plano de Gestão Sustentável

No final de 2009, os Suruí concluíram um plano estratégico para enfrentar os problemas da região. O plano prevê ações locais e busca de parceiros fora da comunidade. “Tínhamos, por exemplo, de envolver o governo, a Funai, o Ibama, a Polícia Federal, para que eles assumissem seus papéis de implementadores de políticas públicas, de fiscalização do desmatamento, de garantidores dos direitos indígenas diante das invasões e ameaças. Entregamos várias cópias do plano aos órgãos públicos, sem muito resultado.”

Batizado de “Plano de Gestão Sustentável Sete de Setembro” – em alusão ao nome do território Suruí em Rondônia –, o documento propõe ações nas áreas de saúde, educação e resgate cultural, além de geração de renda com o manejo de quase 250 mil hectares de floresta. No que depende dos próprios indígenas, os resultados já estão aparecendo. “Cerca 50% da população da Terra Indígena (TI) está neste projeto, que começou com o replantio de espécies vegetais ligadas à nossa vida. Já plantamos mais de 120 mil mudas de castanheiras, seringueiras, árvores frutíferas, nativas e comerciais, como cupuaçu, caju, açaí, banana, café, laranja, abacate, jaca... Temos pasto ainda, mas se houver necessidade de escolher entre o gado e a floresta, acredito que vamos plantar árvores no lugar do pasto. Vai da conscientização da comunidade. Temos de acreditar que é possível ter desenvolvimento com o trabalho e a preservação, sem o dinheiro fácil das madeireiras.”

O objetivo principal do plano estratégico, segundo o cacique, é a independência. “Queremos que essas alternativas permitam que os Suruí se livrem da dependência dos brancos. Como líder, sempre falo que temos de fazer acontecer a nossa independência e não precisar que brancos venham dar ajuda de dinheiro. Nós temos de produzir, nós temos de trabalhar com nossa floresta e tirar recursos sem tirar a floresta.”

A aproximação com organizações parceiras permitiu ampliar o trabalho. Em janeiro deste ano, por exemplo, durante a 16ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-16), em Cancún (México), a Metareilá, em ação conjunta com a Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil), a Forest Trends, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Susutentável do Amazonas (Idesam), o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e a Associação de Defesa Etnoambiental (Kanindé), lançou o Fundo Carbono Suruí, projeto de desenvolvimento sustentável e fortalecimento cultural aos povos da Terra Indígena Sete de Setembro.

Aliciamento busca dividir os índios

O plano trabalha com visão de futuro, insiste ele. “É importantíssimo que a gente tenha a participação de todos na gestão do território. O plano exige isso. Hoje só tem floresta nas terras indígenas. O invasor não tem onde ir tirar madeira. Por isso faz aliciamento de indígenas e trabalha com a estratégia de dividir o povo indígena. Quando o povo está dividido é mais fácil de ser dominado. Temos de nos unir.”

O cacique afirma que os madeireiros espalham que floresta é atraso. “E aí eles falam que precisa matar quem quer atrasar o progresso. Eles mandam recado. Os madeireiros é que falam em matar. Não é o empresário. Ele manda o “toreiro” (o indivíduo que derruba a árvore e prepara a tora para transporte). Depois é que o empresário compra. Deve dar muito lucro. Por isso mandam matar. Eles dizem: tem de matar o Almir que aí os outros líderes recuam.”

“Índio ama floresta mais que deputado”

Para o líder ameaçado, a aprovação do novo Código Florestal pela Câmara dos Deputados em maio deu mais força aos invasores. “Agora eles falam que até os deputados estão do lado deles. Por isso digo que os índios amam a floresta mais do que os deputados. Esse Código aprovado favorece o desmatamento. Deputado não quer proteger floresta. Quer proteger fazendeiro. O Senado precisa corrigir isso. Senão vai enfraquecer mais a luta pela preservação do ambiente.”

Enquanto aguarda ação concreta em defesa de sua vida e da de outros líderes Suruís, Almir busca apoio também de organizações internacionais que já reconheceram a importância de seu trabalho. Em 2008, por exemplo, recebeu um prêmio internacional em Genebra, Suíça, indicado pela Sociedade Internacional de Direitos Humanos por ter tido a coragem de denunciar à Organização dos Estados Americanos (OEA) a exploração ilegal de madeira nas terras indígenas, por defender os direitos e a integridade dos Índios Isolados e por lutar contra as hidrelétricas que vão afetar Terras Indígenas.

No mesmo ano, já havia participado em Londres, a convite do Google Earth, do lançamento de um programa para mapear a terra de sua tribo e, assim, ajudar a protegê-la do desmatamento. Em 2010, o líder maior do povo Suruí foi selecionado pela revista norte-americana Fast Company como uma das 100 pessoas mais criativas no mundo dos negócios naquele ano. Foi o brasileiro que recebeu a melhor colocação, ficando na 53ª posição, à frente do empresário bilionário, Eike Batista, que ficou na 58ª.

SDH analisa pedido de proteção

Nesta quinta-feira, 29 de junho, o ISA perguntou à Secretaria de Direitos Humanos que tipo de proteção seria garantida ao cacique Suruí. A resposta da SDH, por e-mail, foi: “A Secretaria de Direitos Humanos recebeu a solicitação do sr. Almir Suruí de reingresso no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Esse pedido está sendo analisado pela nossa área técnica, que tem mantido conversas constantes com o sr. Almir, bem como com demais órgãos de governo, como a Funai. O objetivo é identificar as situações de violações para garantir proteção ao líder indígena e a toda comunidade, para que possam desenvolver suas atividades com normalidade e com seus direitos plenamente assegurados.”

O cacique recebeu a reportagem do ISA em um pequeno hotel do Setor Hoteleiro Norte, em Brasília, na segunda-feira, dia 27. Na quinta-feira, ele voltou para a sua terra. Deixou no ar uma a frase incômoda: “Minha morte está encomendada. Em algum ponto da floresta está sendo preparada uma emboscada. Só estão esperando uma situação mais favorável.”

A sociedade espera que a proteção chegue antes do pistoleiro.

 

ISA, Julio Cezar Garcia.