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MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA
INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MAMIRAUÁ

A PESCA DA PIRACATINGA (Calophysus macropterus) NA RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MAMIRAUÁ

 

RELATÓRIO TÉCNICO

 

EQUIPE DE ELABORAÇÃO

Guillermo M. B. Estupiñán (Relator)
Miriam Marmontel
Helder L. de Queiroz
Paulo Roberto e Souza
João Valsecchi
Gelson da Silva Batista
Saíde Barbosa Pereira

 

Tefé – AM

Outubro de 2003

Introdução

A atividade pesqueira na Amazônia surpreende pela sua grande diversidade de ambientes, aparelhos de pesca, pescadores e espécies utilizadas.

Segundo informações de desembarque pesqueiro na calha do Rio Solimões-Amazonas, os peixes lisos ou de couro (Siluriformes) têm um papel importante na região do Médio e Baixo Rio Amazonas, destacando-se a piramutaba (Brachyplatystoma vaillanti) e a dourada (B. flavicans). Os principais portos de saída destes peixes são Belém e Santarém, no Estado do Pará, e Tabatinga no Amazonas.

O comércio destes peixes na Amazônia ocidental é realizado quase que exclusivamente na cidade de Letícia, na Colômbia, saindo do Brasil pela cidade de Tabatinga, no Amazonas.

Este fato torna a Colômbia um importante comprador de Siluriformes (peixes lisos) da Amazônia brasileira, e esta atividade se apresenta como uma importante fonte de renda para um grande numero de pescadores ribeirinhos do Rio Solimões.

Uma espécie muito apreciada pelos colombianos para consumo (e também pela indústria de pescado para preparação de filés) é a piracatinga (Calophysus macropterus), conhecida como mota ou simí na Colômbia (Figura 1).

Pertencente à família Pimelodidae, a piracatinga é um peixe de médio porte podendo atingir cerca de 45 cm de comprimento total. A espécie é comum no sistema Solimões/Amazonas. Diferencia-se de todos os demais bagres por possuir duas fileiras de dentes no pré-maxilar, ao contrário das placas de dentes viliformes.

Esta característica na estrutura dentária nos ajuda a conhecer os hábitos alimentares. A piracatinga é considerada uma espécie oportunista, ingerindo alimentos de origem animal e vegetal, além de carcaças de animais mortos. Em função destes hábitos alimentares, este peixe não é muito apreciado como alimento em muitas áreas da Amazônia brasileira (Ferreira et al., 1998; Agudelo et al., 2000).

O fato de ser uma espécie que se alimenta de carcaças de animais mortos faz com que a pesca desta espécie seja preferencialmente realizada com iscas mortas, atraindo os peixes para gaiolas ou currais confeccionados especialmente para esta atividade. As iscas preferidas pelos pescadores são jacarés e botos.

Uma combinação de fatores-chave, como grande demanda pelo mercado colombiano, facilidade de obtenção das iscas e abundância do recurso, leva ao aumento do interesse pela pesca desta espécie. Além desses fatores, a intensificação dessa atividade teria acontecido devido a uma queda nas capturas dos grandes bagres migradores (Piramutaba e Dourada), segundo os ribeirinhos entrevistados.

Ainda, segundo relatos de pescadores do Médio Solimões, a pesca dessa espécie usando a técnica descrita acima acontece intensamente no trecho do Rio Solimões compreendido entre os municípios de Tabatinga e Coari, no Estado do Amazonas.

As Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, localizadas na região do Médio Rio Solimões estão dentro da área de pesca intensa desta espécie e há indícios de uma grande pressão sobre jacarés e botos usados para sua captura. Os primeiros relatos sobre este tipo de pesca dentro das RDS’s foram registrados em 2000 (Silveira e Viana, 2003).

Figura 1. A piracatinga (Calophysus macropterus) (Fonte: Agudelo et al., 2000).

Este relatório tem como objetivo apresentar o problema decorrente desta pesca,  fornecer importantes informações sobre o uso de botos e jacarés dentro das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, acrescentar dados relevantes sobre a atividade (produtividade pesqueira, impactos, etc.) e oferecer propostas para o combate a essa atividade ilegal.

A pesca da piracatinga nas RDS’s

Como citado anteriormente, os primeiros registros da pesca da piracatinga usando carne de jacaré-açu (Melanosuchus niger), jacaretinga (Caiman crocodilus) e boto –vermelho (Inia goffrensis) (Figura 2) como isca ocorreram em 2000. Porém, essa prática vem sendo realizada há mais de cinco anos na região do alto rio Solimões, segundo relatos de ribeirinhos do Alto Solimões.

a)

b)

Figura 2. imagens de botos (a) e jacarés (b) abatidos com suas carcaças abandonadas nas margens dos rios onde ocorre a pesca da piracatinga. (Fotos: Paulo Souza (a) e João Valsecchi (b)).

Jacarés são geralmente capturados com arpões e sacrificados com golpes de porretes ou terçados (facões) na cabeça (Silveira e Thorbjarnarson, 1999). Após a captura, jacarés maiores são cortados em pedaços usados para atrair as piracatingas até uma caixa feita de madeira ou bambu. As técnicas variam muito, ocorrendo geralmente à noite (Silveira e Viana, 2003).

Informações sobre capturas de piracatinga e volumes de isca usados para tal fim foram coletadas oportunisticamente pelos extensionistas Paulo Roberto e Souza (Programa de Organização Política e Sócio-econômica) e Gelson da Silva Batista e Saíde Barbosa (Programa de Manejo de Pesca) do Instituto Mamirauá durante suas atividades de rotina nas comunidades das RDS’s Mamirauá e Amanã.  Todos apresentaram dados de captura e produtividade das iscas.

Segundo Paulo Souza, na comunidade Barroso (Setor Aranapu-Barroso)  (Figura 3) eram abatidos para esta finalidade, no pico da produção (abril a junho), cerca de 100 jacarés por mês, que em alguns casos eram vendidos a apenas R$ 0,50/kg. Na região do Paraná do Aranapu, limite da área focal e a área subsidiaria da RDSM, a caça de jacarés e botos para isca era muito intensa em sete comunidades, ocorrendo com menor intensidade em quatro comunidades na safra de 2002. Assim, esta atividade nesse Setor pode ser considerada comum e intensa.

Nesse mesmo período de pico de atividade ou safra, a piracatinga foi normalmente comercializada a R$ 1,00/kg, podendo entretanto ser vendida ao preço de R$ 0,60/kg.

No Setor Aranapu-Barroso foi constatado também o uso de carne de botos como isca e, durante as “entrevistas”, foi estimado que eram abatidos entre 6 e 12 botos por mês no local.

Somente em uma comunidade a produção deste peixe, na safra, girou em torno de 500 kg ao dia, enquanto que na entressafra ela é de aproximadamente 200 kg/dia nesta mesma comunidade.

Também foi declarado por comunitários que pelo menos seis toneladas de piracatinga por mês foram produzidas na safra de 2002 em todo o Setor Aranapu-Barroso.

Estas informações podem ser comparadas com os registros da caça de jacaré em comunidades da Reserva Amanã e Mamirauá, disponibilizados pela equipe do Sub-Sistema de Monitoramento do Uso de Fauna do Instituto Mamirauá. Freqüência de comprimento total de 51 de 122 jacarés-açú mortos em menos de seis meses nas comunidades Vila Nova do Cuiu-Cuiu (RDSM) e Nova Jeruzalem (RDSA) indicam uma pressão de caça maior encima de indivíduos entre 200 e 250 cm de comprimento total (Figura 3) .

Figura 3. Freqüência de comprimento total de Jacarés-açu (Melanosuchus niger) abatidos em comunidades da RDSA e RDSM. (Fonte: João Valsecchi)

Na Figura 4 são destacados os pontos críticos de abate de iscas na área focal da RDSM e na RDSA (Monitoramento de Uso de Fauna), destacando a intensidade da pressão de caça.

Figura 4. Localização dos pontos críticos de abate de jacaré-açu e botos para a pesca da piracatinga nas RDS`s Mamirauá e Amanã (Fonte: Paulo Souza e João Valsecchi)

O outro bloco de dados foi obtido pela equipe do Programa de Manejo de Pesca, a partir de diálogos com comunitários do mesmo Setor entre  06 e 16 de fevereiro de 2003.

Segundo os comunitários questionados, um jacaré de aproximadamente três metros de comprimento total e um boto fornecem isca para capturar cerca de 100 quilos e 200 quilos de piracatinga, respectivamente. Podem ainda ser utilizados três jacarés por gaiola ou curral em um dia na safra, mas a isca preferida pelos pescadores é a carne de boto por causa do “pitiu” (cheiro forte) e maior quantidade de gordura.

Outra constatação da equipe é o surgimento de um novo ator na cadeia de comercialização deste peixe, que é o “caçador” de jacarés e botos, especializado em vender a produção para pescadores de piracatinga.

Com estas informações estimamos o abate em aproximadamente 90 jacarés abatidos por safra no Setor Aranapu-Barroso. Como um jacaré de aproximadamente 3 m de comprimento estaria sendo vendido a R$ 30,00, estes caçadores movimentaram um valor aproximado de R$ 2.700,00 brutos por safra.

Durante atividades de campo em comunidades ribeirinhas entre os municípios de Tabatinga e Tefé em 2002 e 2003, foi declarado por alguns pescadores que os botos estariam sendo comercializados a R$ 50,00 cada um. Se multiplicamos este valor pelo numero de animais abatidos (nove em média segundo informações obtidas por Paulo Souza) em 2002, os comerciantes teriam uma renda bruta provável de R$ 450,00 por mês.

Além destas estimativas de impacto ambiental desta pesca, há os impactos causados pelo fato de muitos dos jacarés e botos mortos e não utilizados são jogados no rio, provocando grande desequilíbrio e degradação nos sistemas aquáticos locais, além de sujeira e mal cheiro e suas conseqüências para a saúde das próprias populações ribeirinhas.

Com toda a informação recolhida pelas equipes de técnicos do IDSM, foi possível elaborar uma extrapolação da produção de piracatinga e a quantidade de isca utilizada na pesca deste recurso (Figura 5).

Figura 5. Estimativas de produção de piracatinga e iscas usadas para 10 comunidades do Setor Aranapu-Barroso, Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a partir de informações recolhidas em 2002 (linha cheia) e 2003 (linha pontilhada).

Estas estimativas são conservadoras, pois foi considerado que cada comunidade possui apenas uma gaiola/curral e pesca uma vez por semana durante a safra. O valor médio para três meses de safra, baseado nessas estimativas varia entre 15 e 18 toneladas só no Setor Aranapu-Barroso. É uma quantidade relevante, tendo em conta que em Tabatinga (principal centro de comercialização dessa espécie), entre maio e dezembro de 2001, a piracatinga foi a terceira espécie com maior volume nos desembarques registrados naquela cidade, com 140,3 toneladas (11,7% do total desse ano) (ProVárzea, 2002). Isto pode nos indicar que o volume comercializado ilegalmente em tal cidade e não registrado nos desembarques é muito maior que o conhecido atualmente.

Considerando as estimativas mostradas na Figura 5, a venda da piracatinga movimenta um volume de dinheiro bruto avaliado entre R$ 15.000,00 e R$ 18.000,00 por safra (três meses) somente no Setor Aranapu-Barroso, envolvendo 10 comunidades.

As populações de botos e jacarés nas RDS’s

Segundo Martin e da Silva (no prelo), as densidades de botos (Inia goffrensis) nos sistemas da RDSM são muito cíclicas variando com o nível d’água, havendo densidades maiores durante a enchente, enquanto as menores densidades ocorrem na cheia. Densidades intermediarias são registradas nos meses de seca.

Na várzea a densidade média é de 18 indivíduos/km2 e nos rios a densidade vai de 1,8 a 5,8 indivíduos/km2 ou 0,26 à 0,87 indivíduos/KLM (Kilometro Linear de Margem) (Martin e da Silva, no prelo).

Considerando que a RDSM está totalmente dentro do sistema de várzea, a população de botos na área focal (200.000 ha ou 2.000 km2) seria de 36.000 indivíduos na época de água altas.

Quanto à população de jacaré-açu, Silveira e Thorbjanarson (com. pes.) informam que na RDSM ocorre a maior população conhecida desta espécie em toda a bacia Amazônica.

Em estudo realizado no Setor Mamirauá, na área focal da RDSM durante cinco anos, obtiveram-se dados da evolução da densidade de jacarés-açu em três diferentes ambientes (Tabela 1).

Tabela  1.  Evolução da densidade média de jacarés-açu (Paleosuchus niger) em ambientes no Setor Mamirauá, RDSM, (R. da Silveira & J. Thorbjanarson, com. pessoal)

 

Densidade Inicial

Densidade Final

Ambiente

ind/KLM

ind/KLM

Lago

34,3

229,6

Cano

38,6

77,2

Ressaca

48,7

198,7

Embora os números estimados de indivíduos abatidos na região do Aranapu-Barroso pareça ínfimo em relação às densidades acima relatadas, faz-se necessário conhecer o sexo e classe de comprimento onde a pressão da caça seja maior com a finalidade de poder avaliar impactos nessas populações.

Conclusões

Este relatório apresenta de forma mais detalhada aspectos da atividade já descritos por Silveira e Viana (2003).

Esta atividade envolve um grande número de pescadores ribeirinhos e há indicativos de que uma cadeia de produção esteja estabelecida. Assim, precisamos saber mais a respeito desta atividade de tal forma que possamos erradicar a caça ilegal a estes animais usados como isca.

Desta maneira, apresentamos alguns aspectos de relevantes que poderão contribuir na elaboração de sistemas de controle e oferecimento de alternativas ao uso dos jacarés e botos como isca na pesca da piracatinga.

Para tal, consideramos que são necessárias as seguintes providências:

a) Melhor controle das fronteiras (Receita, IBAMA, Exército e Polícia Federal);

b) Mais recursos para educação, controle e fiscalização do IBAMA na área;

c) Dirigir a mão de obra que executa a pesca e fornece aos compradores a piracatinga, para o manejo sustentado de jacarés para aproveitamento da carne e do couro, sob critérios científicos e com base comunitária, dentro das RDS's Mamirauá e Amanã;

d) Buscar maneiras rápidas e efetivas de coleta de informações para estimativas mais precisas da produção de pescado e abate de iscas;

e) Avaliar/caracterizar de maneira rápida o pescador de piracatinga como nova figura/personagem na produção pesqueira regional;

f) Avaliar a economia da pesca da piracatinga nas reservas procurando extrapolar os resultados para as localidades da calha onde é efetuada;

g) Avaliar impactos da caça ilegal nas populações de botos e jacarés nas áreas onde ocorre esta atividade

g) Tornar de conhecimento na opinião publica políticas que permitam o manejo do jacaré;

h) Apresentar outros programas de manejo de recursos naturais como alternativas econômicas de baixo impacto dentro das RDS’s como forma de redirecionar a mão-de-obra.

Bibliografia citada

Agudelo, E.; Salinas, Y.; Sánchez, C. L.; Muñoz, D. L.; Alonso, J. C.; Arteaga, M. E.; Rodríguez, O. J.; Anzola, N. R.; Acosta, L. E.; Núñez, M.; Valdés, H. 2000. Bagres de la Amazônia colombiana: um recurso sin fronteras. Ministério Del Medio Ambiente/SINCHI. Bogotá, Colômbia. 253p.

Silveira, R.; J. Thorbjarnarson. 1999. Conservation Implications of Commercial Hunting of Black and Spectacled Caiman in The Mamirauá Sustainable Development Reserve, Brazil. Biological Conservation, 88:103-109.

Silveira, R.; Viana, J. P. 2003. Amazonian crocodilians: a keystone species for ecology and management...or simply bait? Crocodile Specialist Group Newsletter vol. 22, no. 1, pp. 15-19 — www edition

Ferreira, E. J. G.; Zuanon, J. A. S.; Santos, G. M. 1998. Peixes Comerciais do Médio Amazonas: Região de Santarém. Brasília: Edições IBAMA. 211p.

Martin, A.; Silva, V. River dolphins and flooded Forest: seasonal habitat use and sexual segregation of botos in an  extreme cetacean environment. Manuscrito. Projeto Mamirauá.

ProVárzea. 2002. Estatística Pesqueira do Amazonas e Pará. Manaus. IBAMA/MMA. 76p.


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