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A soja ameaça o Parque Indígena do Xingu

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O que dizem os povos do Parque do Xingu

O cenário que a equipe constatou durante a expedição de fiscalização, com o auxílio de carta-imagem de satélite, entrevistas, estudos e pesquisas, os índios conhecem muito bem. Faz parte do cotidiano das populações indígenas do Parque Indígena do Xingu. Seja para quem vê as alterações nos rios, seja para quem transita pelas áreas de entorno e observa de perto a veloz modificação da paisagem, as lavouras de soja se tornaram uma realidade ameaçadora. "Estamos muito preocupados não só pelo desmatamento no entorno, mas por causa dos rios, que é a vida para nós. Tudo sai de lá, os peixes... Nosso sustento vem de lá", diz Mairawë Kaiabi, presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix). Hoje, na faixa dos 50 anos, Mairawê, que se dedica à fiscalização do parque há décadas, é reconhecidamente uma liderança em todo o Parque do Xingu.


Mairawë Kaiabi (centro), na sede da Atix, em Canarana, durante o planejamento da expedição.

A apreensão que ele manifesta, tem motivado a Atix a desenvolver expedições freqüentes de fiscalização no entorno do PIX, bem como tentar estabelecer um diálogo mais próximo e propositivo junto aos proprietários de fazendas vizinhas. Aliás, ampliar relações de boa vizinhança foi um dos objetivos centrais da quarta expedição Atix/ISA.

A conversa não é simples, especialmente quando se pergunta sobre métodos e orientações de plantio. "Quando eles [os produtores] tiram a mata ciliar, eles plantam [soja] até a beira do rio. Tem um que eu conheço lá no Culuene que plantou assim. Eles fazem um barranco alto para o rio não invadir a plantação. Mas quando dá chuva ou enxurrada, carrega tudo pro rio". A afirmação de Mairawë mostra que a necessidade de conscientizar os produtores está associada aos impactos ambientais gerados pelo uso inadequado e predatório da terra e dos recursos naturais e, também, aos reflexos que essas técnicas provocam sobre as comunidades indígenas.

A fala mansa, a ponderação, a confiança que em Mairawê depositam, fazem dele não só um líder respeitado, mas um sábio, capaz de mediar conflitos entre aldeias no parque. Ele conta que, até agora, o único contato travado com pessoas da região do entorno partiu da comunidade Suyá, que enviou no começo do ano uma carta aos administradores da Fazenda Santa Rita, uma das propriedades vizinhas à Terra Indígena Wawi, expondo suas preocupações em relação ao avanço das plantações de soja. Os índios tomaram essa iniciativa porque uma das áreas de plantio da fazenda está muito próxima à aldeia Ngôjhwêrê. Os Suyá, entretanto, não receberam resposta.

Inquietações sem resposta

Não é a primeira vez que as inquietações dos índios não encontram ressonância. Por diversas vezes, lideranças do Xingu tentaram falar com autoridades da região. Sem sucesso.

Durante a expedição de maio, um prefeito, ao menos, recebeu a equipe. Foi o Almirante Francisco Gomes, de Gaúcha do Norte, a quem foram apresentadas as preocupações quanto ao estado crítico em que se encontram as nascentes do Rio Xingu. Para o Almirante Gomes, é necessário incentivar a recuperação das matas ciliares e, para isso, a cidade já conta com um viveiro de mudas da prefeitura, que aguarda apoio e assistência técnica para orientar os produtores a realizarem o replantio.

Para Mairawë Kaiabi, a atual frente de expansão da soja se caracteriza como o momento mais crítico, dos últimos anos, na relação entre os índios xinguanos e a população do entorno. Até porque esses municípios são relativamente novos, a maioria deles criado na década de 1990. "Antes de ter a soja, quando havia apenas os projetos de colonização, não havia contato ou grandes problemas com a sociedade do entorno", explica Mairawë. As notícias de que a soja ia chegar às fronteiras do parque começaram a circular entre os povos indígenas há mais ou menos cinco anos, coincidindo com a instalação das grandes empresas comercializadoras de grãos. "Na região do sul do parque se falava em uma hidrovia [a Hidrovia Araguaia-Tocantins]. E agora, a história já está acontecendo. Então nós temos uma preocupação muito grande. "


Cerca de antiga fazenda de gado, que começa a plantar soja, passa rente a marco da Funai demarcatório do limite do parque (municíipo de Querência, maio/2003)

Não sem razão. Afinal, a produção de Querência hoje, é escoada em grande parte por Goiânia e daí pode seguir para o Maranhão ou para os estados do Sul. Este longo percurso poderá exigir, no futuro, novas alternativas, se confirmada a previsão para a região de transformar-se em pólo produtor de soja. Esses novos caminhos deverão se conectar à rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), ao norte e ao sul do parque, cujo asfaltamento está em curso no trecho paraense, e intensificarão o processo de ocupação e desmatamento sobre a região das cabeceiras do Rio Xingu. Qualquer das alternativas seria desastrosa para as 14 etnias que vivem no Parque do Xingu.

Mairawê observa que até agora, felizmente, não ocorreram conflitos entre índios e não-índios por causa da soja, ao contrário de outras atividades que são desenvolvidas na área de entorno do parque, como a pesca e a extração de madeira. As expedições de fiscalização em anos anteriores ajudaram a equacionar os problemas com madeireiros e pescadores. "É claro que quando os índios passam na região, os empreendedores ficam todos bonzinhos, mas é só sair de lá que eles fazem o que eles querem", brinca Mairawë. "Acho que conversando com o lado da soja, colocando nossas idéias, o que a gente acha, é importante, a gente consegue mudar", acredita.

Esses mesmos temores são expressos por outras lideranças que a equipe encontrou em seus caminhos. Na aldeia Ngôjhwêrê, do povo Suyá, o cacique Kuiusi foi enfático ao mostrar que a supressão da vegetação em volta das Terras Indígenas e o crescimento do cultivo da soja pode prejudicar os recursos naturais em área indígena.


Em uma das reuniões realizadas com a equipe da expedição, na aldeia Ngôjhwêrê, o chefe do PIV Wawi, Iankóberi Suyá (dir.), explica ao cacique Kuiusi (esq.) a etapa do trabalho que ele acompanhou, em visita à fazendas na região noroeste do município de Querência

Os índios que compunham a equipe da expedição contaram muitos casos durante os quinze dias de viagem. Tamaluí Mehinaku, por exemplo, chefe do posto indígena Curisevo, contou que está se tornando comum ver o céu nublado pela fumaça escura das queimadas realizadas nas fazendas. Vanité Kalapalo, chefe do posto indígena Tanguro, relatou os problemas de invasão de áreas do parque tanto por falta de controle de queimadas, quanto por desmatamento em fazendas contíguas ao Xingu. Winti Suyá também relatou alguns casos de desrespeito aos limites do parque e impactos ambientais gerados pela agropecuária. Para ele, a evidência mais preocupante é a rápida mudança da paisagem a leste do parque, sobretudo no município de Querência, que tem sido palco de extensas derrubadas, dentro do plano de tornar a região em um pólo produtor de soja. Em apenas oito anos, os desmatamentos nas áreas de floresta do município cresceram mais de 100%.


Winty Suyá, à frente, e Tamaluí Mehinaku, durante travessia de barco pelo Rio Curisevo, a caminho do posto indígena de vigilância de mesmo nome, localizado na entrada do parque por esse rio.

 


 

     

O gráfico ilustra a expansão do desmatamento em área de floresta no município de Querência, fora da terra indígena (41% do município está dentro do Parque Indígena do Xingu, onde o desmatamento foi de apenas 2,3% no mesmo período). Para os cálculos, utilizou-se a área do município fora do parque indígena e considerou-se os desmatamentos somente em áreas de floresta. Cabe lembrar que quase 95% do município de Querência, fora do PIX, era recoberto por florestas (do tipo estacional semi-decidual e contato ombrófila-estacional).

Que progresso?

Quando perguntamos a Mairawë Kaiabi sobre a idéia de que a soja traz progresso, ele estranha. "Acho estranho a idéia de progresso do branco. Porque eu vejo tanto sofrimento aí nesse mundo ... Progresso, seria se não deixassem ninguém comer no lixo, dessem comida para todos, que todo mundo tivesse lugar para dormir, lugar para ficar, ter uma casinha. Eu vejo muita gente aí passando fome. Então, para mim isso não é progresso. O progresso pro índio não significa nada. O que trouxe pra nós? Ficamos aí esperando que se faça alguma coisa pros índios, garanta a terra pros índios e não acontece. Não tem estrutura para atender a comunidade indígena. Então eu não vejo nada ..."