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A soja no entorno do Parque do Xingu

A expansão da soja na região dos formadores do Xingu teve início na década de 1990, mas sua introdução na região data de 1980 e está vinculada aos incentivos do governo federal para produtores rurais do Sul, que migraram para o norte do Mato Grosso atraídos pelos projetos de colonização (veja em Histórico). O colono pioneiro Carlos Mazurek, gaúcho que há 30 anos vive em Canarana, contou que os agricultores gaúchos que chegaram à região já tinham a idéia de plantar soja e reproduzir as experiências desse tipo de cultivo no Sul do Brasil, desde a primeira metade do século XX.

No entanto, esse objetivo foi adiado, pois a Cooperativa de Colonização (Coopercol) 31 de Março, a primeira a atuar na região, se recusava a receber a soja, com a justificativa de que não tinha onde estocá-la, já que destinava seus armazéns para recolher as safras de arroz. Além disso, o escritório local do Banco do Brasil não dava financiamento para essa lavoura, alegando que ela não se desenvolveria na região.

Mazurek acredita, porém, que o motivo era outro: "O arroz você planta dois anos e depois não dá mais, porque a terra nessa região não é boa para essa cultura. Daí os agricultores tinham que iniciar produção em terras abertas nos novos projetos de colonização - Tanguro, Garapu, Culuene." Essa estratégia para expansão dos projetos de colonização era bastante prejudicial aos produtores, uma vez que a produtividade do arroz era reduzida e a remuneração dada pela Coopercol sobre o saco do grão era baixa.

Por conta própria, alguns produtores de Canarana começaram a plantar a soja em 1982, mostrando que a lavoura era viável. Dois anos depois, iniciava-se o plantio em Nova Xavantina, Água Boa e Campinápolis. Em 1985, o Banco do Brasil passou a conceder financiamento para o cultivo da soja na região, apesar de muitos agricultores estarem endividados pelos sucessivos empréstimos tomados para produzir arroz. Cabe observar que, apesar desse começo difícil, o arroz continua sendo bastante cultivado na região do entorno do parque, principalmente durante a entressafra da soja, a exemplo de outras culturas, como o milho e o milheto.

De onde vem a soja

Há mais ou menos cinco mil anos os chineses deram início ao cultivo da soja, leguminosa que em estado selvagem crescia nas terras baixas e úmidas Sua expansão na Ásia começou há três mil anos, onde passou a ser utilizada como alimento. Foi só no século XX que chegou ao Ocidente e passou a ser cultivada comercialmente nos Estados Unidos. No Brasil, o grão aportou em 1882 e sua introdução oficial aconteceu no Rio Grande do Sul, em 1914. Da soja se obtém o farelo e o óleo, dos quais se produzem derivados como o óleo de cozinha, insumos da agroindústria e da indústria alimentícia, massas, bebidas, adubos e até cosméticos.

Chega a concorrência e as cooperativas quebram

A intensificação da produção de soja aconteceu mesmo na década de 1990, quando chegaram à região as grandes empresas comercializadoras do grão. A primeira delas, a JX, se instalou em Canarana em 1988 e comprou a safra 88/89 dos agricultores, garantindo que eles pagassem o financiamento contraído naquele ano. Os juros eram altíssimos e não poderiam ser pagos caso a produção fosse vendida para as cooperativas.

Assim, o oligopólio das cooperativas sobre a comercialização de grãos dos pequenos e médios produtores foi quebrado. Segundo o professor Ariovaldo Umbelino, do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, existiram várias cooperativas na região, que rapidamente passaram a atuar como empresas de colonização. Além da Coopercol, são lembradas a Coopercana, a Conagro, a Cotrel, a Cotriguaçu, a CAC e a Coomaju. A partir da chegada das empresas privadas de comercialização de grãos, as cooperativas entrariam em falência.

No início dos anos 1990 algumas empresas como a Ceval e outras menores começaram a operar no Vale do Araguaia. Em pouco tempo, no entanto, a infra-estrutura montada foi adquirida em grande parte pelas multinacionais que se instalaram na região para ampliar sua participação no agronegócio: Bunge (1996) e Cargill (1997), que compraram unidades de armazenagem. A partir de 2000, a Caramuru, única empresa do setor de comercialização de grãos com capital nacional, iniciou uma operação reduzida na região, a partir de seu escritório em Goiânia (GO).

Os vizinhos do Parque

Assim como houve uma mudança no sistema de financiamento e compra da produção na região, também houve uma alteração no perfil dos vizinhos do Parque Indígena do Xingu. Muitas propriedades à leste e ao sul do PIX foram compradas recentemente (período entre seis e 18 meses), e estão transformando os pastos em lavoura de soja, ou arrendando suas terras para o mesmo fim. (...)


As multinacionais se instalam

O diretor da Empresa de Assistência Rural de Canarana (Empaer- MT), Selvino Faccio, explica que além de se tornarem os principais compradores de soja, respondendo por cerca de 95% da safra anual do Vale do Araguaia, empresas multinacionais como a Bunge (dividida em Bunge Alimentos e Bunge Fertilizantes) e a Cargill constituíram uma nova fonte de financiamento e fornecimento de insumos para o plantio, garantindo a expansão da cultura e deixando os produtores menos dependentes da intermediação dos bancos. Apenas no caso de compra de maquinário, o produtor é mais dependente do financiamento do Banco do Brasil.

Em 2002, a Bunge Brasil faturou R$13 bilhões e teve lucro de R$ 330 milhões. Entre seus produtos mais conhecidos estão as margarinas Delícia, All Day e Mila, entre outras, as misturas para bolo Sol e Boa Sorte, as massas Petybom, além de óleos especiais de canola, girassol e azeite de oliva. Já a Cargill teve faturamento bruto de R$ 7, 6 bilhões em 2002. O lucro não foi informado. Entre seus produtos mais conhecidos estão os óleos Liza, Purilev e Veleiros, azeites como La España, fertilizantes e outros.

Além disso, essas empresas criaram unidades de recebimento, secagem e armazenagem de grãos em diversas cidades, como Nova Xavantina, Querência, Canarana, Gaúcha do Norte, Lucas do Rio Verde, Sorriso, entre outras, realizando ainda acordos com fazendas que dispõem de silos e unidades de secagem para o recebimento das safras de outros produtores da região.


Unidade de secagem e armazenagem de soja em fazenda no município de Querência (maio/2003)

A arrancada da soja

A partir da chegada das multinacionais, a soja deu uma arrancada em termos de expansão na região. Para se ter uma idéia, em 1996, o município de Canarana produzia cerca de 18 mil hectares, apenas 25% dos 70 mil hectares que produz atualmente, segundo dados da Empaer. Isso representa uma safra de 1,5 milhão de sacos de soja ou 90 mil toneladas, contribuindo, assim, para o aumento da produção no Mato Grosso (veja em Números da soja no Brasil )

O crédito direto e a expansão de unidades foram fundamentais para se obter tais resultados. Os planos de expansão nos próximos anos têm como objetivo o aproveitamento de áreas de pastagem degradadas.

De acordo com o gerente da Bunge em Canarana, Vericimo Pucheta, "quando acaba a época da chuva, acaba o pasto também, porque a área está degradada, não tem mais nada, o pasto já sugou. Então o produtor é obrigado a corrigir o solo, senão vai perder a terra e o gado. A idéia é que o pecuarista se torne um sojicultor ou arrende sua área, para que daqui a alguns anos possa ter um pasto mais durável". O período de arrendamento varia de quatro a seis anos.


Preparando a mudança: funcionários lavam máquina de fazenda de pecuária, em Canarana, que foi vendida a empresário da soja. (maio/2003)

Previsões

Caso essa estratégia continue sendo utilizada, as previsões são de que a área de soja, só em Canarana, dobre de 70 mil para 150 mil hectares, até 2005, "sem precisar desmatar ou mexer no ecossistema", acredita Pucheta. Para o estado do Mato Grosso, a previsão é de que a área de soja plantada na safra 2003/2004 seja 8,7% maior, atingindo 4,98 milhões de hectares, principalmente pela substituição de pastagens, segundo previsão da Federação Nacional dos Portuários.

Assim como o representante da Bunge, produtores da região e representantes do governo do Mato Grosso acreditam que a expansão da lavoura de soja não promoverá impactos ambientais drásticos por se restringir às áreas de pecuária. No entanto, não existem dados que mostrem efetivamente qual a parcela da expansão da soja que ocupa antigos pastos e que porcentagem resulta em abertura de novas áreas de floresta e cerrado.

Quando a expedição atravessou os municípios de Canarana, Querência e Gaúcha do Norte, visitando fazendas e checando em campo as paisagens, através de cartas-imagem Landsat 2000, verificou que o cultivo da soja não está restrito às pastagens e/ou às áreas degradadas, mas também vem se expandindo para as áreas que estavam até então intactas. Os desmatamentos continuam ao longo do entorno a leste e sul do PIX e, atualmente, a produção também está se expandindo a oeste do PIX, em municípios que originalmente viviam da exploração madeireira como: Sinop, Vera, Cláudia, Marcelândia e Nova Ubiratã. Em Gaúcha do Norte, ao sul do PIX, a expedição flagrou atividades de desmatamento em fazendas próximas ao rio Culuene (Gaúcha do Norte) e áreas recém-derrubadas em Querência, ao que tudo indica, para iniciar a cultura da soja.