17 de junho de 2019  

Índios


Mulheres indígenas do rio Ayari discutem comercialização de pimenta e produção de cerâmica
[01/11/2007 17:15]


Mulheres baniwa dos rios Ayari e Içana se reuniram na comunidade de Canadá, Médio Rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), para discutir a comercialização de pimenta e produção de cerâmica tradicional, feita por elas, com apoio de instituições parceiras. A iniciativa do evento foi da União das Mulheres Indígenas do Rio Ayari (Umira), com participação da Associação das Comunidades Indígenas do Rio Ayari (Acira), da Coordenadoria das Associações Baniwa e Coripaco (CABC), da Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e do ISA-Instituto Socioambiental. A reunião aconteceu nos dias 22 a 26 de outubro (2007)


Cerâmica tradicional baniwa: ofício exclusivo das mulheres, que estava esquecido


Cerca de 150 mulheres baniwa do Içana e de boa parte dos seus afluentes incluindo o rio Ayari, tiveram a oportunidade de discutir o projeto de comercialização da pimenta que elas produzem e também a confecção de cerâmica, atividade tradicional entre elas. Elas se reuniram na comunidade Canadá, no Médio Rio Ayari, noroeste amazônico, entre 21 e 26 de outubro. Na língua baniwa a pimenta em pó é conhecida como “Aatti Iipepe” e em todo Rio Negro é popularmente chamada de jiquitaia. (Saiba mais clicando aqui).

O projeto Pimenta Baniwa é uma iniciativa das comunidades indígenas do Médio Içana e organizado pela Oibi em parceria com ISA, que se destina a comercializar a pimenta em pó processada e consumida milenarmente pelos povos da região. A Oibi já comercializa a pimenta em pequena escala no mercado local, distribuindo-a principalmente em restaurantes da cidade. De acordo com Braulina Aurora, gerente de comercialização da Oibi, a aceitação do produto tem sido boa e por isso a meta agora é conquistar os grandes centros urbanos do país.

O grupo de pesquisadores indígenas do projeto “Pimentas na Bacia do Içana-Ayari: bases para a sustentabilidade da produção e comercialização” apresentou durante o evento, novos dados levantados sobre os sistemas de produção da pimenta. Esses pesquisadores vieram das escolas indígenas diferenciadas da região e recebem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), por meio do Programa Jovem Cientista Amazônida. Eles fazem levantamento de informações da agrodiversidade com base em questões como as variedades de pimentas existentes nas roças, o tempo gasto pelas mulheres para produção e estão descrevendo o potencial de produção de pimentas e jiquitaias na bacia, entre outros dados. Os pesquisadores anotam o nome da mulher, o seu clã, comunidade de origem, idade, nome dos tipos de pimenta na língua baniwa e de que forma a pessoa adquiriu suas pimentas, porque muitas vezes elas ganham as mudas de herança das mães e avós. Com dados dessa natureza, futuramente os pesquisadores poderão descrever os movimentos de circulação e manutenção dessa diversidade de pimentas existente na região.

O censo das pimenteiras

Um ponto importante na apresentação dos pesquisadores indígenas foi o censo das pimenteiras. Foram encontrados 1991 pés de pimenta nas roças de 70 mulheres e desse total se contabilizou 41 tipos de pimentas encontrados na região do Içana/Ayari. "Existem mulheres que já triplicaram o cultivo de novos pés de pimenta desde o inicio do projeto em 2005, isso demonstra a animação e o envolvimento delas no projeto", informou a jovem pesquisadora Paula Florentino.

Elton e Paula, jovens pesquisadores, apresentam os resultados do censo das pimenteiras


Atualmente os dois principais desafios do projeto são: a construção de uma rede de infra-estrutura adaptada para o envaze e armazenamento das jiquitaias e a obtenção da certificação junto ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento. “Estamos lutando para conseguir essa regularização, pois segundo os técnicos do Ministério da Agricultura, um dos requisitos básicos é a construção do espaço adequado para armazenamento e isso já estamos providenciando para breve”. A pimenta jiquitaia, assim como uma série de produtos tradicionais da agricultura brasileira que poderiam estar circulando em prateleiras de todo o país enfrenta dificuldades no processo de regularização junto ao ministério porque a legislação, na maioria dos casos, ainda não se adaptou aos procedimentos de produção artesanal e em pequena escala. “Com o trabalho dos pesquisadores indígenas, estamos também formatando diversas informações sobre a nossa jiquitaia, pois a diversidade, as histórias, a mitologia, a forma tradicional de processamento, agrega valor ao nosso produto”, informou o diretor da Foirn, André Baniwa.

Cerâmica do Ayari promete vender bem

O etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg que esteve no Noroeste Amazônico, nos anos de 1903 a 1905, descrevendo e fotografando as populações indígenas da região com seus objetos e adornos, já registrou as cerâmicas do Ayari como um exemplo de arte indígena com desenhos, formas e grafismos especiais. Trata-se de mais um ofício exclusivo das mulheres, cujo conhecimento é repassado de geração em geração.

Registro das cerâmicas no início do século XX, feito por Koch-Grünberg


Cerâmicas atuais produzidas pelas baniwa do Ayari


No Aiary, as ceramistas também querem sua arte no mercado. Nos dois últimos dias de evento, o tema dominou os debates e se tornou alvo das rodas de discussão envolvendo as associações indígenas locais, parceiros e as próprias ceramistas. Na ocasião, a Casa de Produtos Indígenas do Rio Negro-Wariró, loja de artesanato da Foirn, apresentou sua experiência de comercialização de cerâmica produzida pela Associação de Mulheres de Taracuá, no Rio Uaupés (Amirt). Edilma Martinez, da etnia wanano e administradora do Wariró, informou que a cerâmica do Ayari têm peculiaridades nas suas cores, formas e grafismos, diferentes da cerâmica do rio Uaupés. “As cerâmicas do Ayari tem grande potencial para venda. Entretanto, observamos que faltam alguns detalhes no acabamento final das peças”, informou Edilma. Isso se deve à ausência da pedra de alisamento que é um artefato importante na finalização das peças.

A pedra conhecida pelas mulheres baniwa como “Duwhe”, é um tipo de quartzo que segundo as ceramistas, só é encontrada na região do rio Apapóris do lado colombiano e do rio Orenoco na Venezuela. Dona Norma Rodrigues, mestra na fabricação de fornos, informou que a sua pedra foi uma herança de família, pertenceu à avó e logo depois passou para sua mãe. Hoje está com ela. Futuramente repassará a pedra para a filha mais velha que está começando a fazer cerâmica. “A minha avó conseguiu essa pedra no rio Apapóris há muitos anos, quando a família dela foi trabalhar na exploração da borracha”, conta. Outras ceramistas contam que antigamente elas se deslocavam até essas regiões distantes para trocar as pedras por ralos fabricados por elas.

Projeto para comercializar a cerâmica

Para impulsionar a produção e posteriormente a comercialização da cerâmica, André Baniwa, propôs à Umira elaborar um projeto a fim de adquirir financiamento para o desenvolvimento de pesquisa referente à cerâmica e ainda promover novos encontros e oficinas de intercâmbio. “O importante agora é apoiarmos a elaboração desse projeto junto com a Umira, assim poderemos conhecer mais a fundo as histórias sobre a cerâmica, promover intercâmbios com as mestras e ainda possibilitar a busca das pedras de alisamento que são de extrema importância para esse trabalho”.

O ofício de se fazer cerâmica ao lado de outras produções artesanais dos povos baniwa, ficou marginalizado por muitos anos pelo comércio dos regatões que navegavam na região antes da demarcação das Terras Indígenas do Alto Rio Negro. Esses “patrões” trocavam as peças de cerâmica por roupas velhas, produtos alimentícios vencidos, ou pagavam um valor muito baixo por elas. Com o passar dos anos, as mulheres desanimaram da produção, porque viram que o seu produto não tinha valor. E assim a confecção passou a se restringir ao uso doméstico. Por isso, a técnica de fabricação das peças foi sendo esquecida por muitas gerações, restando apenas algumas mestras, geralmente mulheres mais velhas.

Com o movimento de valorização dos produtos indígenas promovido pelo comércio justo da Wariró/Foirn, as mestras e outras mulheres passaram a se interessar e a produzir cerâmica para a venda com apoio da Umira. “Precisamos organizar mais encontros de intercâmbios entre mestras e novas aprendizes, principalmente para mantermos vivo esse conhecimento”, afirmou a artesã Suzana Cortez, presidente da Umira.

Carolina Campos, ceramista da comunidade de Araripirá


O dinheiro das vendas da cerâmica ajuda na complementação da renda das famílias. E sendo um ofício feminino, os maridos estão ao lado das mulheres para apoiá-las na produção, seja carregando a argila que é retirada a longas distâncias da comunidade, seja pescando ou caçando enquanto elas dividem o seu trabalho entre a roça e a confecção de cerâmica. “O meu marido está me apoiando, porque ele sabe que é importante para mim e para nossa família. É um dinheirinho que nos ajuda bastante. Além disso, quando eu faço cerâmica , lembro da minha avó e da minha mãe que me passaram esse conhecimento e que hoje estou passando para minhas filhas”, disse Carolina Campos, ceramista da comunidade de Araripirá, no rio Ayari.

 

ISA, Andreza Andrade.