23 de setembro de 2017  

Brasil


Defensor do desenvolvimento sustentável é assassinado no Pará
[28/08/2001 10:18]


Ademir Alfeu Federicci foi baleado em sua casa na madrugada de 25/08. Acredita-se que o crime tenha motivação política, já que Dema, como era chamado, era a principal liderança em Altamira (PA) na luta contra latifundiários, madeireiros e barragens. Uma manifestação acontecerá na sexta-feira em protesto contra a violência na região.


Na madrugada de 25/08, por volta de 02:30 horas, Ademir Alfeu Federicci, um dos coordenadores do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu (MDTX)) foi assassinado. Segundo relato da polícia civil local, sua casa foi invadida por um homem armado, com quem Dema travou luta corporal e de quem recebeu um tiro que o atingiu na cabeça. A versão oficial dá conta de que se tratou de um assalto. Mas, de acordo com Ayrton Faleiro, diretor de Política Agrária da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores Agrícolas), não foi realizada perícia no local, nem exame de balística e o corpo só chegou à funerária duas horas depois de ter sido retirado da casa.

Ayrton Faleiro contou à reportagem do ISA, por telefone, que Dema era o principal interlocutor público para o projeto de desenvolvimento sustentável da região. Além disso, ele apoiava a recente investigação da polícia federal em Medicelândia sobre desvio de recursos destinados a projetos financiados pela Sudam e defendia a criação de três grandes Unidades de Conservação, indo contra interesses de madeireiros.

Enquanto integrante do MDTX, Dema, atuava no movimento de resistência contra a construção das barragens no Xingu, buscando esclarecer e mobilizar as comunidades, sindicatos, cooperativas e associações da Transamazônica para a elaboração de um projeto de desenvolvimento sustentável para região.

Em manifesto divulgado pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), o coordenador Jean-Pierre Leroy denuncia que organizações ligadas à Reforma Agrária e à agricultura familiar no Pará, em particular no sul do estado (Conceição do Araguaia e Marabá) e na Transamazônica, são “vítimas de uma violência que lembra os tempos da ditadura”. Leroy afirma que esse é o contexto em que se insere o movimento no qual estava engajado Ademir Federicci: “O MDTX luta por um outro modelo de desenvolvimento na Amazônia e contra a barragem de Belo Monte, opondo-se à entrega da Amazônia Brasileira a supostos baluartes e promotores de um desenvolvimento que visa tão somente o enriquecimento de poucos às custas da destruição da floresta e da marginalização da maioria da sua população.”

A previsão da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no município de Vitória do Xingu (PA), tem sido motivo de controvérsias. De um lado estão ambientalistas e movimentos sociais, trabalhadores rurais e habitantes da região contra a construção. De outro, a Eletrobrás e a Eletronorte, órgãos do governo federal, que lutam pela aprovação rápida do Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), e por conta disso, estão “atropelando” o processo de consulta pública.

Contra a violência na região e em repúdio ao assassinato de Ademir Federicci, será realizada na sexta-feira uma grande manifestação em Altamira, que contará com a presença de lideranças locais, trabalhadores de toda a região e atores políticos de diversas partes do Brasil.

Ricardo Barretto, ISA, 28/08/01.