17 de outubro de 2018  

Índios


Pressão de garimpos ilegais ameaça grupo Yanomami “isolado”
[29/09/2011 12:35]


Durante reconhecimento aéreo, Hutukara e Funai localizaram um grupo yanomami isolado empurrado para fora de seu território pelo avanço do garimpo na TI, aumentando perigosamente sua vulnerabilidade social e sanitária.


No dia 14 de julho deste ano a Hutukara Associação Yanomami e a Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’kuana da Funai localizaram, durante um reconhecimento aéreo, uma casa coletiva pertencente a um subgrupo yanomami considerado “isolado”. Este grupo é tradicionalmente conhecido por seus antigos vizinhos e também inimigos Yanomami de língua Yanomae/Yanomama do oeste e do sul como Moxi hatëtëma thëpë.

Casa Coletiva dos Moxi hatëtëma thëpë na Terra Indígena Yanomami no Amazonas

O sobrevoo que localizou a casa coletiva foi orientado por informações dos Yanomami dos rios Mucajaí e Couto de Magalhães que vivem em regiões próximas da zona da descoberta.

Os registros fotográficos e em vídeo realizados dão conta de uma população aparentemente numerosa (cerca de 70 pessoas) e saudável, com muitas crianças. A reação dos aldeãos ao verem o monomotor sobrevoando a baixa altitude foi característica dos grupos com pouca experiência e muita desconfiança dos brancos, amedrontados, com mulheres e crianças correndo para se esconder na mata e homens no centro da maloca atirando flechas contra os intrusos.

“Isolados” se deslocam em direção a grupos inimigos

Ao longo do ano passado registraram-se indícios crescentes da presença desses índios na mata situada a sudoeste do Alto Rio Uxiú (trilhas, acampamentos, fogueiras e restos de comida, furtos de utensílios domésticos) e foram até notificados encontros fortuitos com caçadores Moxi hatëtëma thëpë pela comunidade yanomami recentemente instalada no curso inferior deste rio, perto da beira do Mucajaí. Finalmente, em fevereiro de 2011, ocorreu uma aproximação inesperada entre os dos dois grupos. Cerca de seis Moxi hatëtëma thëpë atiraram então várias flechas contra uma família do Uxiú que cruzava o rio de canoa, mas sem atingir ninguém. Um homem do Uxiú reagiu ao ataque e teria conseguido ferir um dos seus agressores com um tiro de espingarda, colocando os guerreiros em fuga.

Apesar do incidente seguir o padrão de recusa de contato mantido tradicionalmente pelos Moxi hatëtëma thëpë, sua aproximação deliberada de uma região habitada por inimigos potenciais não deixa de ser surpreendente. Pelo menos duas hipóteses podem ser evocadas para explicar este fato inédito. A primeira – fundamental - é o encolhimento progressivo do espaço de migração do grupo na região, cercado por um novo avanço das atividades garimpeiras clandestinas que já os afastaram das cabeceiras do Rio Apiaú na segunda metade dos anos 1980. De fato, tanto as regiões situadas ao sul/sudeste (Bacia do Alto Apiaú), quanto àquelas situadas ao oeste/noroeste (Alto Catrimani e Couto de Magalhães) do antigo território dos Moxi hatëtëma thëpë estão hoje invadidas por garimpos. O fato vem sendo reiteradamente denunciado pela Hutukara Associação Yanomami desde 2007 sem que as autoridades tomem qualquer providência efetiva.

Dependência de ferramentas de metal

A outra hipótese, complementar à primeira, é que desde o fim dos anos 1980, os Moxi hatëtëma thëpë possuem objetos de metal (facãos e terçados), provavelmente furtados dos garimpeiros. E se tornaram dependentes dessas ferramentas. Esta nova dependência lhes imporia, hoje, a necessidade de se aproximar de comunidades yanomami onde poderiam continuar a furtar esses objetos sem se expor demasiadamente. Nesta situação, parece ter-lhes sobrado apenas um corredor migratório em direção ao noroeste, abaixo da área recentemente ocupada pela comunidade de Uxiú longe dos garimpos e das zonas mais densamente povoadas por seus antigos inimigos de outros subgrupos yanomami.

Após décadas de ataques de seus vizinhos - agravadas pela chegada de espingardas na TI Yanomami -, dizimados pelos garimpeiros desde o fim dos anos 1980, os Moxi hatëtëma thëpë estão agora cercados por novas áreas de garimpo e compelidos, por razões econômicas, a engajar-se num processo arriscado de aproximação com os demais grupos yanomami. Sabe-se, por meio de inúmeras experiências semelhantes, que esta conjuntura os coloca numa situação de extrema vulnerabilidade social (conflitos intercomunitários) e sanitária (contágio de doenças virais e bacterianas).

Esta situação deverá ser abordada de forma conjunta pela Frente de Proteção e pelo Distrito Sanitário Yanomami (DSEI-Y) por meio de um rápido e rigoroso controle do entorno da área dos Moxi hatëtëma thëpë, levando em conta a história trágica deste grupo e evitando contatos improvisados que poderiam ter um desfecho letal. As primeiras medidas deste controle deverão priorizar a organização de uma vasta operação de desintrusão dos garimpos ilegais da TI Yanomami bem como de controle do financiamento e da logística das atividades garimpeiras na capital do Estado de Roraima (Boa Vista) e regiões adjacentes à TIY. O reforço urgente no precário esquema de assistência em saúde em toda a região seria outra medida imprescindível.

(Este texto foi produzido a partir do artigo Novos “isolados” ou antigos resistentes?- Reaparecem os Moxi hatëtëma thëpë do alto Apiaú (TI Yanomami), escrito por Bruce Albert e Marcos Wesley de Oliveira, que será publicado no livro Povos Indígenas no Brasil – 2006-2010 ainda em 2011.

Veja aqui a íntegra do artigo.

 

ISA, Instituto Socioambiental.