23 de agosto de 2017  

Índios


Hutukara realiza assembleia e comemora 20 anos da homologação da TI
[29/10/2012 15:01]


Representantes das 37 regiões da Terra Indígena Yanomami discutiram plano para o futuro, firmaram pacto contra mineração e elegeram nova diretoria em meio aos festejos que incluíram cantos, danças e diálogos cerimoniais


Entre os dias 15 e 20 de outubro mais de 700 representantes yanomami reuniram-se na aldeia Watoriki (Demini), no Amazonas, na VII Assembleia Geral da Hutukara Associação Yanomami (HAY) que teve como tema os 20 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami.

A reunião intercalou debates acalorados, caso da mineração, com danças, cantos e os tradicionais diálogos cerimoniais, o wayamu. A programação noturna refletia o entusiasmo dos participantes, tomada por cantos e discursos que vararam as madrugadas, levando os visitantes não yanomami a se perguntarem admirados: “quando esse povo dorme?”

Mineração

Um dos momentos mais importantes da assembleia foi o pacto firmado entre os Yanomami presentes contra a mineração. Após serem informados sobre o relatório do projeto de lei que pretende regulamentar a mineração em Terras Indígenas, em tramitação no Congresso Nacional, tendo como relator o deputado federal Édio Lopes (PMDB/RR), várias lideranças se revezaram ao microfone, manifestando sua posição contrária à falta de garantias dos seus direitos e alegando que a lei só trará doenças e destruição para os Yanomami. E decidiram que a nova diretoria da Hutukara terá como objetivo principal combater qualquer tentativa de implementação da mineração na Terra Indígena Yanomami.

Os representantes também cobraram da Funai e de outros órgãos presentes o apoio para as suas atividades produtivas e de fiscalização da TI, para não serem chantageados por autoridades que colocam a mineração como solução para justificar a ausência do Estado naquela região.

Representatividade e visitantes

Pela primeira vez em uma assembleia da HAY todas as regiões da TI Yanomami estiveram representadas. Marcaram presença também outras duas organizações yanomami - a Ayrca (Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes) e a Horonami, que representa os Yanomami da Venezuela.

Para Maurício Tomé Rocha, vice-presidente da HAY, o que mais impressionou foi a participação maciça dos Yanomami. “A grande representatividade dos Yanomami e de suas associações fortalece a nossa união e dá mais força e legitimidade às decisões que foram tomadas”, disse. “Foi uma oportunidade para sabermos o que está acontecendo com os parentes de outras regiões, seja com relação à saúde, educação ou garimpo”.

Além das informações sobre a situação dos Yanomami do Brasil, a presença de um grupo de quatro Yanomami da Venezuela, integrantes da Horonami, despertou muito interesse, principalmente quando apresentaram a situação na região do Alto Ocamo, na Venezuela, de onde, recentemente, chegaram notícias de um suposto massacre causado por garimpeiros brasileiros. Eles não confirmaram o massacre, mas alertaram para a presença de muitos garimpeiros brasileiros na região e a ausência completa de assistência à saúde (veja mais).

Saída de fazendeiros do Ajarani

A presidente da Funai, Marta Azevedo, presente ao evento, informou que em 18 de outubro o órgão indigenista protocolou na justiça o pedido de pagamento em juízo das indenizações aos fazendeiros da região do Ajarani, que 20 anos depois de homologação ainda ocupam terras dentro da TI. Com o depósito das indenizações em juízo os ocupantes têm 30 dias para deixar a TI. Caso não saiam, haverá uma operação de desintrusão para que os Yanomami, finalmente, reocupem e recuperem a área que está ambientalmente degradada.

Antonio Alves, da Sesai, Marta Azevedo, da Funai e Davi Yanomami

A Funai, por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’kuana (FPEYY), também apresentou o resultado de seus trabalhos e os planos para o próximo ano, principalmente no que se refere às ações de combate ao garimpo, intensificando as ações de vigilância nos acessos fluviais da TI Yanomami (rios Mucajaí, Uraricoera, Ericó e Catrimani). O órgão indigenista espera contar com o apoio do Exército e da Polícia Federal para dar continuidade ao trabalho de inteligência que visa identifcar e prender os empresários do garimpo. Dario Vitório, do Conselho Diretor da HAY, disse que não se sabe quem compra e para onde vai o ouro que sai da TI Yanomami, reforçando que as investigações devem continuar até que toda a cadeia do ouro seja conhecida e desmontada.

Ministério Público Federal (MPF)

O novo Procurador da República em Roraima, Fernando Machiavelli, representou a instituição que participou pela primeira vez de uma Assembleia da HAY. Machiavelli falou sobre os problemas que afetam os Yanomami e Ye´kuana e deram origem a procedimentos instaurados no MPF em razão dos problemas de gestão da Sesai no estado, da ausência de cumprimento das obrigações da Secretaria Estadual de Educação, dos crimes de exploração mineral ilegal e manifestou preocupação com a continuação da ocupação dos fazendeiros no Ajarani.

Campanha da radiofonia

Durante a assembleia, a Hutukara anunciou uma campanha para expandir a rede de radiofonia: dos atuais 18 para 88 rádios distribuídos por toda a TI. Lançada no dia 17/10, contou com o apoio imediato do ISA (para adquirir três radiofonias), da Fundação Rainforest da Noruega (para adquirir uma) e da Embaixada da Noruega (para a compra de outra). A expansão da rede de radiofonia é vista como estratégica no combater ao garimpo e para promover a gestão da TI, ao aumentar o fluxo de informações entre os Yanomami sobre os diversos temas de seu interesse. Em breve a campanha estará no site da Hutukara, onde qualquer pessoa ou instituição poderá ter informações detalhadas e fazer sua doação.

Eleições

No último dia da assembleia (20) houve a eleição dos novos diretores da Hutukara que deverão cumprir mandato de quatro anos (2013-16). O resultado das eleições foi o seguinte:

Presidente: Davi Kopenawa, Demini (reeleito)

Diretor: Armindo Góes, Maturacá

Diretor: Dário Vitório Kopenawa, Demini (reeleito)

Diretor: Emílio Sisipino, Homoxi

Diretor: Huti Yanomami, Catrimani

Diretor: Maurício Tomé Rocha Ye’kuana, Auaris (reeleito)

Também prestigiaram a assembleia representantes de outros povos e organizações indígenas do Brasil: os xinguanos Ianukulá Kayabi Suya e Winti Suya, da Atix; os Puyanawa José Luiz Lima e Rosileide Lima, da Opiac; os rionegrinos Luiz Brasão e Almerinda Lima, da Foirn; os Timbira Arlete Bandeira e Jonas Sansão, da Wity-Cate; os Wajãpi Kumaré e Kasiripina, da Apina; e as lideranças Dorvalino Kaingang e Maurício Gonçalves Guarani, participantes de um intercâmbio promovido pela Rede de Cooperação Alternativa (RCA).

Ainda estiveram presentes representantes das organizações Centro de Trabalho Indigenista, Comissão Pró-Índio do Acre, Embaixada da Noruega, Instituto de Pesquisa e Educação Indígena (Iepé), Instituto Socioambiental, Survival International, Fundação Rainforest da Noruega, e representantes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Distrito Sanitário Yanomami Ye’kuana, Secretaria da Presidência da República, Ibama/RR e Iphan/RR.

 

ISA, Marcos Wesley e Ana Paula Caldeira Souto Maior.