23 de agosto de 2017  

Índios


Dificuldades de navegação e imprevistos marcam segunda semana da expedição à TI Yanomami
[14/11/2012 12:49]


Novos relatos descrevem o dia a dia de mais uma semana de expedição à parte leste da TI Yanomami (RR), que teve início no dia 27 de outubro último. Integrada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), HAY (Hutukara Associação Yanomami), Exército e ISA, a expedição pretende percorrer cerca de 280 quilômetros. A iniciativa é apoiada pela Fundação Rainforest da Noruega. O trecho percorrido nessa segunda semana não revelou sinais de invasão, mas a época de seca, as corredeiras, os galhos e árvores caídos no igarapé neste trecho atrasaram um pouco o cronograma estabelecido


A viagem pretende colher dados para um diagnóstico da área entre os rios Ajarani e Apiau, onde há invasões não indígenas. Os primeiros relatos foram publicados em 6/11 (veja aqui). Para acompanhar melhor veja no mapa abaixo a rota da expedição.

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Leia os relatos do antropólogo do ISA Moreno Saraiva Martins.

Sábado, 3 de novembro de 2012

"Iniciamos o dia hoje esperando uma nova turma que entrou para nos acompanhar no próximo trecho da expedição. Felipe Araújo e Silas Nascimento, do ISA, e François-Michel Le Tourneau, um geógrafo francês, pesquisador do Centre national de la recherche scientifique (CNRS) que trabalha com os Yanomami desde 2002, e é pesquisador associado do ISA/RN.

Com o resultado do dia de ontem, quando descobrimos uma invasão de posseiros muito grande dentro da TI, o pessoal da Funai que nos acompanhava ficou em nossa base logística com objetivo de realizar uma operação para retirada dos invasores. Ontem mesmo entraram em contato, via telefone celular, com o Coordenador da Funai de Boa Vista, que providenciou um reforço policial para realizar a retirada dos invasores. Provavelmente a equipe deve entrar na segunda-feira, 5/11. O desfecho da operação saberemos apenas quando voltarmos desse trecho da expedição, que deve acontecer no domingo, dia 11 de novembro.

Os novos integrantes da expedição chegaram às 10h da manhã. Rapidamente carregamos a nossa Kombi com os equipamentos e fomos em direção ao Rio Repartimento. Esse trecho da expedição consiste em subir o Rio Ajarani,e em determinado momento pegar um igarapé até o início de uma linha seca de mais de 20km, que devemos percorrer a pé.

Conseguimos iniciar o trecho quando o sol já estava a pino, e seguimos viagem de forma tranquila, sem nenhum contratempo. De fato esse é o trecho em que esperávamos encontrar menos vestígios de invasão. Paramos apenas para checar algumas clareiras, feitas no início de 2011 por técnicos do Instituto de Terras e Colonização de Roraima. Eles estavam demarcando terras para serem distribuídas para a colonização. E por não estarem cumprindo os trâmites legais para a distribuição das terras, o Ministério Público Federal conseguiu paralisar o processo. Um dos nossos objetivos era checar se o processo tinha continuado em campo. Até o momento não encontramos nenhuma evidência.

Paramos para montar acampamento às 17h30, depois de 59km percorridos por rio. Fiquei animado com a chegada de François, que é um ótimo companheiro de viagem, além de ser um geógrafo muito competente, e que poderá nos ajudar bastante, principalmente na localização dos marcos na linha seca".

Domingo, 4 de novembro de 2012

"Hoje foi o dia das corredeiras. Acordamos bem cedo, com o sol levantando, e antes das 7h já estávamos nos barcos. Foram mais de 10 corredeiras e em várias delas tínhamos que descer do barco e arrastá-lo. Em outras, contávamos com a pericia dos pilotos dos barcos, que subiam as corredeiras sem parar as embarcações. Sempre é um momento tenso, pois qualquer erro pode fazer o barco virar. E se isso acontecer em uma corredeira forte, podemos perder todas as nossas coisas e até nos machucar. Saindo do barco e empurrando-o pelas corredeiras, o perigo é outro: arraias. A arraia é um peixe em forma de disco, e em seu rabo existe um ferrão com veneno. Uma ferroada de arraia pode causar graves ferimentos e dor aguda.

Felizmente passamos ilesos por esse trajeto e por volta de 13h alcançamos um igarapé sem nome que é o limite da TI e temos que seguí-lo. Estávamos bem ansiosos para ver como seria a navegação por esse igarapé, pois estamos na estação seca, e os rios estão bem baixos. Seguimos pelo igarapé mais duas horas, avançando muito lentamente, pois tivemos que parar muitas vezes para cortar árvores caídas. Cortando uma árvore caída com a motosserra, Orlando, um dos Yanomami que está nos acompanhando, caiu na água, levando junto a motosserra. Felizmente não se feriu gravemente. Logo depois desse incidente paramos para tentar consertar a motosserra, e preparar o almoço. No cardápio, carne de jacaré e de porco do mato, que foram mortos durante o nosso trajeto.

Enquanto uma parte da equipe ficou preparando o almoço e limpando o terreno para armarmos nossas redes, outra parte continuou subindo o rio para já ir limpando o igarapé das árvores caídas.

Hoje conseguimos vencer, em duas horas, 1,2km dos 31km do igarapé em que estamos. Isso está nos preocupando bastante, pois se seguirmos nesse ritmo não conseguiremos vencer todo o trecho previsto no tempo que temos. Amanhã conseguiremos avaliar melhor a situação".

Corredeiras obrigam os participantes da expedição a empurrar o barco rio acima, torcendo para não serem atacados pelas arraias

Barco sobe cachoeira no Rio Ajarani

Galhos e árvores caídas dificultaram a navegação no igarapé

Segunda-feira, 5 de novembro de 2012

"Acordei com um tiro, bem próximo ao acampamento. Era Orlando que acabava de matar um mutum. Tomamos café com biscoito e carne de jacaré moqueada. As 7h30 retomamos a viagem. Hoje conseguimos andar 7km em mais de 10h. O igarapé em que estamos viajando é muito estreito e as árvores caídas retardam muito a nossa viagem. Grande parte do trajeto passamos dentro da água, cortando árvores com terçados e motoserra.

Hoje avistamos mais um dos perigos com os quais temos de tomar cuidado: o poraquê, um peixe que dá descargas elétricas fortíssimas para se defender. A descarga pode levar uma pessoa a desmaiar, e isso pode ser perigoso se a pessoa estiver dentro da água.

Uma das conclusões a que chegamos nesses dois últimos dias é que essa parte do limite da Terra Indígena está livre de pressões de fora. Desde que começamos a subir o Rio Ajarani até esse igarapé em que estamos, não avistamos nenhum sinal de presença ou mesmo passagem, de indígenas ou não indígenas. É uma região completamente intocada.

Considerando o tanto que avançamos hoje, é pouco provável que consigamos cumprir o nosso objetivo. Ainda faltam mais de 20km para alcançarmos a linha seca, e é pouco provável vencermos essa distância a tempo. Começamos a considerar a possibilidade de abandonar os barcos e uma parte da nossa equipe seguir a pé. A questão é que a mata aqui na região não é muito alta, o que torna difícil também a caminhada. Decidimos que amanhã vamos continuar avançando de barco, e no final do dia avaliaremos se na quarta-feira continuaremos de barco ou se nos dividiremos, para que uma turma vá pela mata. Infelizmente eu não poderei seguir a pé, pois apesar de meu pé estar bem melhor, ainda não consigo caminhar normalmente".

Terça-feira, 6 de novembro de 2012

"Quatro quilômetros em mais de 10 horas de trabalho pesado. Esse foi o resultado do dia de hoje. Muitos galhos e árvores caídas no leito do igarapé. E para piorar, perdemos mais de duas horas tentando acabar com um ninho de marimbondos que estava em uma galhada no meio do caminho, e que resultou em dois companheiros de equipe ferroados. Terminamos o dia desanimados.

Por causa dessa morosidade no avanço decidimos que amanhã uma parte da turma seguirá a pé. Já adequamos o nosso objetivo ao tempo que temos. Estamos a aproximadamente 17km do início da linha seca. Ao invés de tentar caminhar por ela toda, o nosso objetivo tornou-se chegar ao início da linha seca, e avaliar a situação dos dois primeiros marcos geodésicos da Funai, que ficam muito próximos um do outro. As margens desse igarapé tem o mato muito fechado, tornando muito difícil a caminhada. A turma que vai caminhar deve se distanciar pelo menos 500 metros de seu leito e andar mais ou menos paralelo a ele.

Fico bem triste de não poder acompanhar a turma que vai. Para mim e para Morzaniel da HAY que também ficará, os próximos dois dias vão ser bem entediantes. Pelo menos poderemos ficar pescando e aproveitarei para tentar aprofundar o meu conhecimento da língua yanomami.

Infelizmente estamos apenas com uma espingarda, que deve ir com a turma que vai caminhar. É sempre mais seguro estar com uma espingarda no meio da mata".

Para seguir em frente, 10 horas de trabalho pesado

Participantes esperam a retirada da galhada para que os barcos possam continuar

Durante o verão no acampamento, se pode dormir a céu aberto

Quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"Hoje pela manhã a maior parte de nossa equipe saiu para a caminhada. O objetivo é que eles consigam atingir o início da linha seca. Serão aproximadamente 40km, ida e volta, para serem vencidos em dois dias e meio. Ficamos eu, Felipe, Silas, Morzaniel e Peri, que está com suspeita de malária.

A nós que ficamos só resta esperar. Aproveitamos as primeiras horas do dia e fizemos a limpeza dos barcos, que estavam muito sujos. Em seguida levantamos acampamento, e saímos rio abaixo, com objetivo de chegar ao local do acampamento anterior, ainda nesse igarapé em que estamos. No caminho vimos que o igarapé está secando, o que é preocupante, pensando em nossa viagem de retorno. Se o nível de água baixar demais teremos que refazer grande parte do trabalho que fizemos, mais uma vez cortando troncos e galhos caídos.

Em menos de uma hora conseguimos voltar ao ponto em que dormimos no dia anterior, rio abaixo, em contraste com as 10 horas que levamos para subir esse mesmo trecho. Logo que chegamos, nos dividimos. Eu fui pescar com Morzaniel e os outros ficaram preparando o almoço. O resultado da pescaria foram três bons peixes e a hélice do motor de popa quebrada. Tínhamos conosco uma hélice velha, que trocamos, mas ela está muito avariada e quase quebrando também, além do que faz o motor gastar muito gasolina, pois seu rendimento está comprometido. No outro barco, que ficou rio acima esperando a equipe que saiu em caminhada, há outra hélice de motor, mas de outra marca. Esperamos que ela sirva bem, pois do contrário estaremos com um problema. Essa hélice avariada pode quebrar a qualquer momento ou pode consumir o restante da gasolina que temos antes de chegarmos de volta à nossa base de apoio, no posto de saúde.

Ademais, o dia transcorreu calmo. Nos resta esperar".

Enquanto alguns foram a pé em paralelo ao igarapé, outros montaram acampamento e ficaram na espera

Quinta-feira, 8 de novembro de 2012

"Mais um dia esperando os nossos companheiros que saíram em caminhada. Durante a noite passada fomos surpreendidos por uma forte chuva, às 2h da manhã. Até então estávamos dormindo sem armar lona, pois as chuvas são raras nessa época do ano. Quando conseguimos armar a lona, ainda meio atordoados de sono, muitas das nossas coisas já tinham molhado bastante, inclusive as redes de dormir. O restante da noite, dormindo em cima de panos úmidos, foi bem desagradável.

Cedo pela manhã todos saímos para pescar. Consegui fisgar um bom surubim, de mais de 3kg, que me custou um corte no dedo ao puxar a linha de pesca. Depois de comer peixe ensopado, começamos a discutir como faremos a sistematização dos dados que estamos coletando para produzir mapas e um relatório. Além de um mapa com todo o trecho percorrido durante a expedição, pensamos em mais três mapas temáticos: um sobre as pressões no entorno, outro sobre as invasões e, finalmente, um com os marcos e placas da Funai que encontramos. Com esses dados sistematizados poderemos ter uma boa dimensão da situação dessa parte do limite da TI Yanomami".

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012

"Passamos a manhã pescando e fazendo comida para esperar a turma que saiu para caminhar. Pegamos três bons peixes. Às 13h chegaram, e o almoço estava quase pronto. Comemos e seguimos viagem, para adiantar o retorno. Um fato que nos deixou muito preocupados foi a hélice do outro motor que sumiu. Eu tinha certeza de que tinha deixado em cima do barco que ficou rio acima. Mas ela não estava lá. Vamos ter que seguir todo o caminho de volta com a hélice que está avariada".

Relato de Júlio Ye’kuana e François sobre o caminho que fizeram a pé:

"Foi um coquetel de dificuldades: formigas, jiquitaia (uma formiga minúscula que causa uma reação alérgica muito desagradável na pele), cipoal, tiririca, caba, serras altas. O mato foi sempre muito difícil para transpor. Era mato baixo, não era floresta alta. Mas tivemos muitas dificuldades. A ida foi mais difícil e quando voltamos foi mais fácil pois já tínhamos aberto trilhas. No primeiro dia, andamos em linha reta aproximadamente 10km. Saímos às 7h30, e chegamos às 17h30.

No dia seguinte saímos às 6h30, e chegamos ao meio dia em nosso objetivo, que era o local do marco. Ficamos 30 minutos procurando o marco e não encontramos. Nessa caminhada fomos apenas nós dois, o restante ficou no acampamento. Chegamos de volta ao acampamento por volta das 17h. Estávamos sem as nossas coisas, mas mesmo assim a caminhada foi muito cansativa. Pegamos chuva no caminho. Do acampamento para o marco o mato era mais fácil de vencer. O primeiro dia é que foi mais difícil. Sempre tinha que ter alguém na frente cortando o mato. Íamos nos revezando na frente. Júlio e Aracu foram os que mais trabalharam cortando mato.

Durante todo o trecho vimos muita caça, e pelo comportamento das caças, que não fugiam, eram animais muito pouco ariscos à presença humana, sinal de que a pressão de ocupação no entorno da TI nessa região ainda não existe ou é muito incipiente. A fronteira pareceu não ter sinal de invasão. Escutamos apenas um barulho de motosserra ao longe.

Uma coisa estranha que encontramos foi um buraco redondo de 7 metros de diâmetro aproximadamente, que pode ser um sinal de garimpo antigo, de mais de 10 anos atrás. Pode ser somente um local que os garimpeiros usaram para pesquisar a existência de ouro na região. Isso fora da TI".

"Amanhã seguiremos de volta para a nossa base de logística. O nosso prazo é domingo final de tarde, quando vem um carro para levar François para Boa Vista, e na segunda-feira pega um avião para França. Ainda na segunda-feira de manhã um caminhão vem pegar os barcos para continuarmos a expedição pelo Rio Apiau".

Sábado, 10 de novembro de 2012

"Hoje continuamos o retorno desse trecho da expedição. Foi um dia relativamente tranquilo. Vencemos em menos de duas horas o trecho que faltava do pequeno igarapé em que estávamos e alcançamos ainda cedo o Rio Ajarani. Descendo o rio passamos com certa facilidade pelas cachoeiras que demoramos um dia inteiro para vencer.

Poderíamos ter chegado ainda hoje no posto da saúde indígena do Ajarani, onde está o restante das nossas coisas, mas os indígenas que estão nos acompanhando queriam levar peixe para as suas comunidades. Por volta das 13h paramos então para fazer almoço e pescamos o restante do dia. Conseguimos pegar mais de 20 piranhas pretas, que agora estão sendo moqueadas (defumadas) para se conservarem. Amanhã antes do meio dia devemos alcançar o porto onde está o nosso carro".

A volta pelo Rio Ajarani foi bem mais fácil a bordo do barco pilotado pelo Julio

Peri, o proeiro, indicando o caminho...

...e desviando das pedras na descida da cachoeira

Dia de voltar à base de apoio logístico e depois percorrer outro trajeto

Segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Ontem não pude escrever o relato do dia. Escrevo agora de Boa Vista, da sala de espera da emergência do hospital. Aguardo a chegada do ortopedista. Acabei de fazer um raio X que confirmou um osso quebrado do meu pé. O médico diz que a fratura do meu pé é estável. Terei apenas que ficar com ele enfaixado nas próximas duas semanas, e durante esse tempo posso caminhar, só não posso correr e pular.

Ontem, domingo, saímos de nosso acampamento em direção à nossa base de apoio. O combinado era que viria um carro de Boa Vista para levar embora um parte de nossa equipe. François para Boa Vista, Morzaniel, que volta para sua casa, na comunidade Yanomami do Demini, e Silas, o estagiário de Geoprocessamento do ISA.

Durante o caminho de volta paramos algumas vezes para pescar o nosso almoço. Em menos de 30 minutos já tínhamos peixe suficiente para 20 pessoas. Logo que chegamos no porto, o carro que viria buscar os três que voltariam encostou. Todos fomos para o posto e logo começamos a avaliar os equipamentos e mantimentos que tínhamos para fazer os trechos seguintes da expedição. Além de uma nova hélice, precisaremos também de gasolina para o próximo trecho.

Logo entrei em contato via rádio com a comunidade do Apiau, onde seria o nosso ponto de apoio. Tentei falar com os nossos apoiadores de lá, mas estranhamente não estavam. Eles estavam sabendo da nossa chegada no dia seguinte, e fiquei surpreso de não estarem lá nos esperando. A técnica de enfermagem que estava no posto do Apiau não soube me informar onde estavam.

Mesmo assim estávamos mantendo o nosso cronograma, e começamos, com a ajuda de François a fazer avaliação, a partir de imagens de satélite e da hidrografia da região, dos trechos que percorreríamos. Hoje, segunda-feira um caminhão iria buscar a nossa embarcação e nossos mantimentos, e nós seguiríamos viagem com a kombi.

No entanto, para nossa surpresa, uma ligação por rádio oriunda da comunidade do Apiau, com quem acabáramos de modular, nos informava que mais de 40 garimpeiros chegaram ao posto, presos por uma operação ostensiva contra o garimpo realizada pela equipe da Funai.

Recebendo notícias de garimpo na região, a equipe da Funai se adiantou à nossa expedição e percorreu grande parte do Rio Apiau e alguns de seus afluentes, dentro da Terra Indígena, e estourou sete garimpos prendendo mais de 40 pessoas.

Logo que ouvimos essas informações consegui conversar com João Catalano, o chefe da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami, responsável pela operação. Ele confirmou o ocorrido e disse que não sabia quando conseguiria retirar todos os garimpeiros detidos. Disse ainda que alguns garimpeiros conseguiram escapar para a floresta. Avaliamos, então, junto com toda nossa equipe e com João Catalano, que deveríamos ao menos esperar a retirada dos 40 garimpeiros do posto do Apiau antes de continuarmos. E também seria importante para nossa segurança que alguém da Funai e Exército ou polícia nos acompanhasse quando retomássemos a expedição, por causa dos garimpeiros que fugiram mata adentro. Voltamos então para Boa Vista.

Hoje um ônibus da Funai saiu para pegar os garimpeiros e somente amanhã, terça-feira, eu e Júlio devemos conseguir conversar com Catalano, e decidir a continuação da expedição".

Terça-feira, 13 de novembro de 2012

Terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Hoje conseguimos fazer uma reunião com a Funai. A operação de retirada de garimpeiros realizada na região do Apiau, durou uma semana e teve um saldo extremamente positivo. Mas foi também muito cansativa e em certa medida muito arriscada. Iniciou-se quando três servidores da Funai e três indígenas estavam investigando o roubo de um motor de barco que teria sido levado por agricultores do Projeto de Assentamento que faz divisa com a TI.

Durante a investigação a equipe da Funai foi encontrando garimpos instalados dentro da Terra Indígena. E a cada garimpo desmantelado, os motores eram queimados e os garimpeiros detidos.

Depois de desmantelar sete pontos de garimpo, a equipe da Funai decidiu que não poderia mais ir atrás disso, porque além de já ter detido 52 pessoas, não estava armada e estava em desvantagem numérica. Do caminho do garimpo até o ônibus que os encaminhou à Polícia Federal, em Boa Vista, 27 garimpeiros escaparam para a floresta.

Na reunião que fizemos hoje, com ISA, Funai e Hutukara, decidimos que seria prudente não realizar o trecho da expedição previsto para acontecer no Rio Apiau, pois além dos garimpeiros que escaparam, e ainda podem estar pela região, existem também os garimpos que não foram desativados.

Nessa reunião decidimos então que em vez de fazermos o trecho do Apiau, a Funai, o ISA e a Hutukara focariam esforços na retirada dos invasores que a expedição identificou na região do Ajarani. Para isso, faremos reuniões amanhã com o Ministério Público Federal e com o Ibama, com o intuito de planejar uma operação de retirada dos invasores e a colocação de placas na região. O objetivo é retirar os invasores da TI e responsabilizar aqueles que organizaram a invasão.

Devo voltar a relatar os desdobramentos da expedição após os primeiros resultados das ações de retirada dos invasores.

(Moreno Saraiva Martins)

 

ISA, Instituto Socioambiental.