10 de dezembro de 2018  

Índios


Funai retoma atividades em região de índios isolados, no Acre
[26/06/1998 15:18]


Sertanista informa que trabalhos de identificação da área vão continuar, apesar da hostilidade dos índios.


O indigenista José Carlos Meirelles, chefe da frente de contato do Rio Envira, no Acre, informou que sua equipe está retornando à base instalada na confluência do igarapé Xinane (também chamado Cachoeira Progresso) com o rio Envira, de onde foi retirado por uma operação envolvendo o Comando Militar da Amazônia depois de um ataque de índios isolados. De acordo com Meirelles, o retorno da Funai ao local é fundamental para impedir a entrada de intrusos e recuperar as boas relações que vinham sendo mantidas entre as várias etnias da região e sua equipe.

Meirelles, que há dez anos vive e trabalha próximo do Alto Rio Envira, considera que a atitude dos índios isolados – que, nos últimos meses, atacaram moradores de um seringal situado próximo ao rio Jordão e, em seguida, incendiaram um acampamento da equipe que demarcava a linha seca norte da Terra Indígena Kampa do Rio Envira – foi uma reação normal a uma mobilização estranha na região. "Se sentiram ameaçados, com a barulheira e a quantidade de pessoas", explica. O retorno da equipe deverá provocar novas hostilidades, prevê Meirelles. "Mas não tem problema, pois estamos acostumados a tomar flechada".

Trabalho inútil

O sertanista considera que o ataque sofrido por sua equipe e os técnicos da Serplan, empresa contratada pela Funai para executar os trabalhos demarcatórios, poderia ser evitado. Segundo Meirelles, a demarcação desse limite é totalmente dispensável, já que se situa entre duas terras indígenas contíguas – a própria TI Kampa do Rio Envira e a TI Kaxinawá do Rio Jordão. "Os próprios índios conhecem as áreas de caça e roça dos outros índios", afirma. A decisão, agora, é de não retomar os trabalhos de demarcação do limite entre áreas e recuperar a situação de respeito mútuo que vigorava antes do confronto, ocorrido na primeira semana de junho.

Apesar de as informações sobre os grupos indígenas isolados da região ainda estarem no nível das especulações, sobrevôos realizados nos últimos meses permitiram identificar a localização de suas malocas. Segundo Meirelles, elas estão espalhadas por uma extensa área, que inclue terras indígenas já demarcadas e a TI Alto Tarauacá, interditada por portaria da Funai (de 21/05/98) para garantir proteção aos isolados e os trabalhos da frente de contato. Uma segunda portaria, publicada um dia depois, criou um grupo de trabalho incumbido de definir os limites da terra indígena e realizar levantamento fundiário, inclusive vistoriar as benfeitorias. Meirelles diz que muitas famílias de não-índios - moradores de seringais localizados na área ainda não demarcada, local de perambulação desses índios - têm deixado a região temendo ataques.

O sertanista afirma que não se sabe ao certo quantos índios são, tampouco se compõem apenas uma etnia. Mas, em função do tamanho das roças e da quantidade de malocas avistadas nos sobrevôos, ele acredita tratar-se de um dos grupos isolados mais numerosos da Amazônia, algo em torno de 200 índios. " Devem ser Pano", diz, referindo-se à uma das famílias lingüísticas faladas na região. Sua convicção vem de informações obtidas por uma índia, sequestrada há 50 anos por um caçador, que vive entre os brancos.

ISA, 26/06/1998.