CRIANÇAS SÃO USADAS PARA DIFUNDIR AGROTÓXICOS

Dioclécio Luz


Capa de material didático do Programa Agrinho

No Paraná, se desenvolve uma experiência incomum de propaganda e estímulo ao uso de agrotóxicos. Lá os professores da rede pública ensinam as crianças do meio rural a usarem os pesticidas. Isto acontece dentro de uma farsa: aparentemente as crianças estão participando de um programa de educação ambiental onde se aborda a questão da saúde, meio ambiente e até cidadania. Na verdade, elas estão sendo doutrinadas para no futuro se tornarem consumidoras de agrotóxicos. Uma exótica parceria entre o Governo do estado do Paraná e as indústrias fabricantes de agrotóxicos garante a doutrinação sistemática das crianças.

O "Programa Agrinho", seu nome oficial, no ano passado catequizou 1 milhão e duzentas mil crianças e adolescentes da rede pública, de 310 municípios. Durante o ano de 1999, elas aprenderam sobre "tríplice lavagem", um modo de tratar das embalagens de agrotóxicos descartadas. Desde 1996, quando foi criado o programa, elas aprendem aspectos do uso dos agrotóxicos. Ou seja, não se questiona o uso de pesticidas nas lavouras, mas como usá-los. Em 1999 aprenderam como resolver um problema criado pelos fabricantes: qual o destino das embalagens descartadas. A jogada de marketing foi a tríplice lavagem, uma solução ecológica para o problema.

O tema "Por que fazer a tríplice lavagem?" veio embutido num programa que abordava outros temas de caráter importante, como "Adolescência, sexualidade e amor (saúde jovem)"; "Dentes saudáveis, criança feliz (odontologia preventiva)"; "Praticando a cidadania na escola (cidadania)"; "Saúde na família (saúde)"; "Por que a água é um recurso natural renovável mas limitado (água)?"; "A sobrevivência do homem depende da biodiversidade (biodiversidade)"; "O que você pode fazer para evitar o efeito estufa (clima)"; e "Qual a importância do solo para o equilíbrio ambiental? (solo)".
No ano passado, 18.143 professores da rede escolar atuaram em defesa dos interesses dos fabricantes de venenos. Depois de treinados, receberam vasto material "pedagógico" sobre os temas e abordaram-nos nas salas de aula durante o ano letivo. Tiveram liberdade para trabalhar os temas da forma que achassem mais conveniente. No final, as crianças fizeram redações que concorreram a prêmios. Se o aluno é premiado o professor também é. Em 1999, foi uma fartura de prêmios: 10 automóveis Pálio 0 Km, 90 televisões, 90 aparelhos de som, 45 microondas, 45 bicicletas, 10 computadores, 9 cursos de informática, e 9 CD Rom educativos. 

QUEM PAGA TUDO ISSO?

Conforme Patrícia Torres, funcionária do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no estado do Paraná (Senar/PR) e coordenadora do Programa Agrinho, o custo total do programa é de R$ 2,4 milhões. Metade do custo é financiado pelas indústrias fabricantes de agrotóxicos: Bayer, Novartis, Dow AgroScience, Jacto, Milenia, Du Pont, Hokko e pela entidade que reúne todas elas, a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef). A outra metade é dinheiro público, do Senar. Sem contar a rede pública de ensino, que é disponibilizada para o trabalho; funcionários da Secretaria de Agricultura e da Secretaria do Meio Ambiente.

A coordenação é feita pelo Senar. E, garante Patrícia, os fabricantes não interferem em nada. Na festa de premiação do Agrinho de 1999, o presidente da Andef, Christiano Simon, entregou prêmios e posou feliz ao lado de crianças que elaboraram redações sobre o tema... "Saúde".

Também participam do Agrinho a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP, entidade que reúne os grandes proprietários de terra), as Secretarias de Educação, da Agricultura e Abastecimento, do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, e sindicatos rurais. 
Esse é um programa dirigido para as crianças e adolescentes de baixa renda da área rural. Exatamente os jovens que, no futuro, deverão manipular os agrotóxicos.

"O Agrinho não estimula o uso de agrotóxicos", retruca Simone Weber Polack, engenheira agrônoma, assessora de educação sanitária do departamento de fiscalização de defesa sanitária da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná. Na sua opinião, a tríplice lavagem é recomendada para resolver um problema que já existe. "A parceria com as indústrias ocorre porque é um problema que elas desejam resolver", diz Simone, que participou de comissão julgadora que selecionou as melhores redações no ano passado. Mas a Secretaria tem algum programa para reduzir o uso de agrotóxicos? "Não", é sua resposta. E reconhece: "o Agrinho trata do 'uso adequado' de agrotóxicos", não de sua substituição por algo não-agressivo ao meio ambiente. Independente disso, para Simone o Agrinho é um sucesso.

Mais entusiasmada com o programa é a secretária de Educação do Paraná, Alcyone Saliba. "Nossa meta é duplicar o que fizemos em 99, chegar a 100% do ensino fundamental no estado em 2000", diz Alcyone.
Na sua opinião, a parceria com as indústrias fabricantes de pesticidas é benéfica para todos. "É preciso acabar com os melindres", diz, "as companhias que poluem, por razões econômicas e de marketing, estão interessadas em promover a despoluição do meio ambiente. E se não nos ajudam, vão continuar poluindo da mesma forma". 

SEM ALTERNATIVA

O deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR), que é médico, ironiza: "de fato, o Agrinho é um sucesso; um sucesso na formação de futuros consumidores de agrotóxicos. Se não fosse assim, se fosse algo preocupado com o meio ambiente, o Agrinho orientaria para uma agricultura alternativa, ecológica, e não para o uso de venenos".

Segundo o engenheiro agronômico, escritor, especialista em agroquímica e engenharia genética, Sebastião Pinheiro, "estão preparando um mercado futuro, treinando crianças para aceitar os agrotóxicos. E isso é apresentado como política pública de proteção! Tudo sob o beneplácito do Ministério Público, dos governos, da Embrapa. É uma imoralidade".

O Ministério Público, porém, já analisou o programa. A promotora do meio ambiente do estado do Paraná, Cynthia Maria de Almeida Pierri, informa que relatório de maio do ano passado sobre o Programa Agrinho revela algumas verdades. "O título da cartilha - 'Agrinho em defesa da natureza' - dá uma idéia equivocada sobre o conteúdo. Na verdade, o texto é favorável ao uso de agrotóxicos. Eles citam que o agrotóxico é a única forma de controle, quando não é." Outra falha do programa é quanto as cartilhas. Conforme Cynthia Maria Pierri, elas não foram pensadas em atender por faixa etária - o material didático é o mesmo para todos. E mais: "chegamos à conclusão de que o material é impróprio porque defende a utilização de agrotóxico, ao invés de orientar crianças e adolescentes a nunca utilizarem este material". Isto é crime? "Não", diz a promotora. As conclusões do relatório estão sendo encaminhadas ao Senar/PR.

Não é preciso esperar as crianças crescerem para que amplie o mercado. Conforme a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná, desde a implantação do programa, em 1996, até hoje, houve um aumento de mil toneladas no consumo de pesticidas no estado. Na safra 1995/96 o consumo era de 41 toneladas; na de 1998/99 o consumo subiu para 42 mil toneladas. Em suma: o Agrinho já é um sucesso para o comércio de venenos.

Dioclécio Luz é jornalista.
Artigo publicado originalmente no jornal Folha do Meio Ambiente.

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Tópicos neste artigo:

UM PROGRAMA PARA CRIANÇAS DO CAMPO
BRASIL: PARAÍSO DA INDÚSTRIA DE VENENOS


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