Ingarikó cruzam a fronteira para discutir turismo com os Pemon do Monte Roraima na Venezuela
Friday, 06 de November de 2015O território Ingarikó, Wîi Tîpi, está situado na porção setentrional da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, uma região de impressionante beleza natural que tem, cada vez mais, chamado a atenção de turistas. Seus principais atrativos são as trilhas e cachoeiras no entorno da Serra do Sol, a possibilidade de dormir ao pé do Monte Roraima na aldeia Karamanpak tëi e o acesso ao Monte Caburai, extremo norte do Brasil.
Ainda que as poucas e intermitentes visitas turísticas no território Wîi Tîpi tenham motivado alguns ingarikó a se qualificar em cursos técnicos de turismo oferecidos pelo Instituto Federal de Roraima (IFRR), tais experiências anteriores desencadearam problemas e imprevistos que culminaram na suspensão temporária da entrada de turistas na região. Na última Assembleia extraordinária do Conselho do Povo Indígena Ingarikó (Coping) ficou decidido que a atividade turística só deveria acontecer depois que estivesse melhor organizado.
Com a recente Instrução Normativa (IN) 03/2015, divulgada em julho pela Funai, que regulamenta o turismo em Terras Indígenas, a expectativa é de que os Ingarikó tenham maior segurança jurídica para ordenar o turismo em seu território. A IN estabelece que o turismo pode acontecer somentes se for proposto por indígenas, suas comunidades indígenas ou organizações representativas, portanto de base comunitária, visando a promoção e a valorização da sóciobiodiversidade e a geração de renda indígena, mediante a apresentação de um Plano de Visitação a ser aprovado pela Funai.
Buscando compreender melhor os impactos e os benefícios da atividade, os Ingarikó visitaram as comunidades Pemon Kuramakapay e Paraitepuy, ambas situadas próximas ao Monte Roraima, no Parque Nacional Canaima, no sul da Venezuela. A comissão Ingarikó foi recebida por autoridades indígenas e do estado venezuelano, que explicaram como funciona o turismo na região, os desafios ligados ao relacionamento com as operadoras de turismo, a influência dos valores e costumes ocidentais nas comunidades, a dificuldade de controlar o acesso ao Monte Roraima e os problemas relacionados à destinação do lixo deixado pelos turistas. Foram mencionados também os benefícios trazidos com a geração de renda por meio de venda do artesanato, dos restaurantes e hospedagens nas comunidades indígenas e o pagamento aos guias e carregadores. Muitas pessoas enfatizaram a importância da atividade como alternativa ao garimpo, que cresceu muito na região nos últimos anos.
O intercâmbio foi favorecido pelo fato de que os Pemon visitados e os Ingarikó, que fazem parte do povo Kapon, partilham uma história e cultura comuns, e estão localizados nas áreas protegidas Parque Nacional Canaima e Parque Nacional Monte Roraima. Promovido pelo Coping entre 24 e 26 de outubro, contou com o apoio e assessoria do Instituto Socioambiental. Durante a Assembleia Anual, que ocorrerá neste mês de novembro, os Ingarikó irão compartilhar a experiência e traçar diretrizes sobre a atividade.