Relatora da ONU sobre direitos indígenas mostra preocupação com PEC 215
Wednesday, 09 de March de 2016A relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, questionou as consequências e mostrou preocupação com alguns projetos em tramitação no Congresso que ameaçam os direitos indígenas, como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que transfere do governo ao Legislativo a última palavra sobre os limites das Terras Indígenas (TIs).
“Quais são as chances para os povos indígenas se esse poder for para o Legislativo?”, questionou. “Se o Congresso é dominado basicamente por interesses que gostariam de adquirir as terras para seus próprios interesses, então haveria poucas chances de as populações indígenas terem seus direitos a suas terras reconhecidos e protegidos. Essa é uma preocupação muito séria minha”, afirmou Tauli-Corpuz.
Ela ouviu denúncias e análises de representantes de comunidades indígenas e tradicionais na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ontem (8/3). Além de parlamentares, estiveram presentes representantes de organizações indígenas e indigenistas, quilombolas e pequenos agricultores.
A relatora também questionou os participantes da reunião sobre o Projeto de Lei do Senado (PLS) 654, que fragiliza o licenciamento ambiental, e o PL 1.610, que pretende liberar a mineração nas TIs. Ela ainda expressou preocupação com ações violentas cometidas contra as comunidades.
“O que dói mais é a impunidade”, disse emocionada a liderança indígena Rosane Kaingang. Ela lembrou a morte do menino kaigang Vitor Pinto, de 2 anos, degolado em Imbituda (SC), em dezembro. Rosane considerou o crime um exemplo de racismo violento. “O Brasil precisa ser punido, a corte internacional precisa tomar uma decisão imediatamente”, acrescentou.
“Estamos muito preocupados. As bases do movimento estão angustiadas e, ao mesmo tempo, revoltadas contra essa política que está se tornando anti-indígena e não é só de um poder, mas de todos os poderes do Estado”, criticou Paulino Montejo, assessor da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Pela manhã, Tauli-Corpuz recebeu das mãos do líder indígena Davi Kopenawa um relatório sobre contaminação por mercúrio oriunda do garimpo na Terra Indígena Yanomami (AM/RR). O estudo é uma parceria entre o ISA, Fundação Oswaldo Cruz, a Hutukura Associação Yanomami e a Associação do Povo Y’kuana do Brasil (APYB), entre outros. Nos próximos dias, o ISA vai lançar em seu site um especial sobre o assunto.
Sociedade civil
Ainda pela manhã, a relatora reuniu-se com organizações da sociedade civil, que apresentaram denúncias e comentaram a conjuntura indigenista no País.
“A relatora tem um bom conhecimento sobre essa conjuntura. Como todos nós, também se mostrou incomodada com a justificativa do governo federal de que não atua na defesa dos direitos indígenas porque estaria limitado por decisões do Judiciário e do Legislativo”, informa Adriana Ramos, coordenadora de Política e Direito do ISA que participou do encontro.
Na segunda (7/3), Tauli-Corpuz participou de encontro com alunos do Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais (MESPT), da Universidade de Brasília (UnB). Os estudantes criticaram os vetos da presidente Dilma Rousseff à proposta de ampliar o uso de línguas indígenas em escolas e universidades (saiba mais).
Visita
Nesta quarta (9/3) pela manhã, Tauli-Corpuz volta ao Congresso para participar de uma audiência na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Depois de Brasília, ela deverá visitar Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará (saiba mais). A visita de dez dias começou, na segunda, para coletar dados sobre as ameaças e agressões aos direitos indígenas no país. A viagem terá como resultado um relatório com recomendações para proteção e promoção dos direitos indígenas que será encaminhado à Comissão de Direitos Humanos da ONU e ao governo brasileiro, em setembro.