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Sociedade civil se prepara para a Conferência do Clima de Paris

Organizações e movimentos sociais preparam grandes manifestações de rua para deixar claro que estão de olho em uma das mais importantes conferências internacionais dos últimos anos, que acontece no início de dezembro, e pretendem influenciar negociadores
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A sociedade civil internacional está se preparando para dar visibilidade às suas posições e tentar influenciar a Conferência do Clima (COP-21), em meio ao momento político que precede as grandes rodadas de negociação do evento, que acontecerá no início de dezembro, em Paris. A COP-21 será um passo fundamental na tentativa de construir um acordo com todos os países para que a temperatura média da Terra não ultrapasse os 2º C até o fim do século, limite considerado seguro pela ciência para evitar impactos mais graves das mudanças climáticas.

Com a proximidade da conferência, a agenda internacional preparatória das mobilizações é intensa. Em novembro, às vésperas do início da conferência, há duas datas-chave: 28 e 29 de novembro, quando estão previstas grandes mobilizações em Paris e em vários lugares do mundo que pretendem reforçar que a sociedade civil está de olho na conferência. Em dezembro, serão organizadas a “Cidade das Alternativas”, que têm como objetivo divulgar as soluções existentes para a luta contra as mudanças climáticas, e a “Zona de Ação Climática (ZAC)”, uma espécie de “Cúpula dos Povos” da conferência, ponto central das atividades e encontros da sociedade civil em um espaço artístico e cultural chamado “104”. Ambas iniciativas serão abertas ao público. No dia 12 de dezembro, depois da conferência oficial, está prevista outra grande manifestação de rua, denominada “A última palavra”.

Os preparativos começaram em junho

Em meados de junho, mais de 400 representantes de todo o mundo encheram o salão da Universidade de Nanterre, cidade da região metropolitana de Paris, para preparar essas e outras manifestações da sociedade civil até dezembro. Ações estão sendo articuladas por ONGs, movimentos sociais, redes e coletivos diversos que incluem grupos ecologistas e conservacionistas, religiosos, agricultores, indígenas, professores, artistas, sindicatos e estudantes, entre vários outros.

“Sem a mobilização da sociedade civil não há pressão e sem pressão os governos são incapazes de agir além dos seus próprios interesses, os quais têm dominado até agora as decisões em torno das negociações do clima”, afirma Juliette Rousseau, uma das responsáveis pela Coalition Climat 21 – articulação de centenas de organizações da sociedade civil - na França. “O objetivo é pressionar [os negociadores], para que eles [os governos] compreendam que atrás de tudo isso, tem uma massa de cidadãos preocupados e mobilizados”, explicou. Rosseau também teve participação importante na organização da Cúpula dos Povos, durante a Rio+20, em 2012.

A Coalition Climat 21 articula 140 organizações da sociedade civil cujo objetivo é criar uma plataforma para coordenar as mobilizações de forma conjunta e global e estabelecer um canal de comunicação com os organismos institucionais durante a COP-21. É coordenada pela WWF, Greenpeace, Amigos da Terra, Oxfam, e Cáritas, além da rede de organizações católicas CIDSE ––, e organizações altermundialistas como a ATTAC (Associação para a taxação financeira e ajuda aos cidadãos), criada na França.

Movimento global

Em âmbito internacional, as tentativas de viabilizar uma ação global da sociedade civil vinham ocorrendo há vários anos, principalmente depois da frustração e desmobilização provocadas pelo insucesso histórico da Conferência de Copenhague, em 2009, de conseguir concretizar um novo acordo climático internacional. “Depois de Copenhague houve uma aproximação entre os movimentos, que estavam uns separados dos outros, porque percebemos que não seriam as negociações sozinhas que salvariam o clima”, conta Alix Mazounie, da Climate Action Network (CAN).

A articulação, no entanto, começou para valer há dois anos, como resultado da mobilização realizada na Conferência do Clima de Varsóvia, de 2013. Naquele momento, em um contexto de paralisia das negociações, as ONGs e movimentos sociais concordaram pela primeira vez com um gesto comum: abandonar a conferência denunciando o descaso dos países negociadores. “Essa foi a primeira vez que, mundialmente, conseguimos nos mobilizar todos juntos e foi porque partilhávamos a mesma indignação”, lembra Mazounie

O grande momento de recuperação chegou em setembro de 2014, quando, em uma jornada histórica, às vésperas da reunião da assembleia das Nações Unidas sobre clima, 400 mil pessoas saíram às ruas de Nova York e mais de duas mil manifestações ocorreram em todo o mundo para pedir mais compromisso contra as mudanças climáticas. Nunca antes, uma mobilização pelo clima havia engajado tantas pessoas no planeta. “As demandas das organizações que trabalham com o tema da mudança climática nunca foram tão consideradas”, comenta Mazounie

Um dos lemas do movimento “mudemos o sistema, não o clima” indica a necessidade de ultrapassar o modelo de sociedade que nos levou ao problema climático e poder repensar a maneira de produzir e consumir energia, de nos locomovermos e de produzir alimentos. Para o movimento, isso implica uma mudança em nossa forma de nos relacionar com os territórios e com as cidades. Outra questão fundamental é a justiça climática com os mais pobres, que sofrerão mais com as consequências do desequilíbrio do clima.

A sociedade civil vê Paris como uma ocasião para consolidar um movimento climático com visão de logo prazo. Por isso, desde já está sendo planejada uma marcha mundial para maio de 2016. “O objetivo é impedir que o pessoal se desmobilize, por isso é necessário ter sempre manifestações no horizonte para que possamos continuar juntos nessa luta”, explica Mazounie.

Luna Gámez e Carlos García Paret, de Paris, especial para o ISA
ISA
Edição: 
Oswaldo Braga de Souza
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