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Conexão SP-Floresta Amazônica: saúde indígena recebe toneladas de EPIs para enfrentar a Covid-19

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Articulada pelo Programa Rio Negro do ISA, doação de R$ 2 milhões do Fundo Todos pela Saúde beneficiou instituições e estreitou trabalho de cooperação humanitária na pandemia
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Coordenado pelo Instituto Socioambiental (ISA), um amplo esforço logístico com apoio de outras instituições e o envolvimento de diversos profissionais levou cerca de 15 toneladas de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) a áreas remotas e de difícil acesso no interior do Amazonas. A doação do Fundo Todos Pela Saúde (TPS), do Itaú Unibanco, saiu de um galpão em São Paulo (SP) e percorreu cinco mil quilômetros em caminhões, caminhonetes, balsa e avião até alcançar profissionais que atuam no atendimento aos povos indígenas.



Os materiais — máscaras, aventais e protetores faciais — no valor de R$ 2,02 milhões, foram transportados em 1.715 caixas. Desde o início da pandemia, a demanda pelos equipamentos é alta e constante: os EPIs reduzem os riscos de contaminação dos profissionais de saúde, mas são descartáveis. No total, foram entregues 220 mil máscaras cirúrgicas, sete mil máscaras N95, 150 mil aventais, 100 mil gorros, 400 óculos, 200 viseiras e 300 litros de álcool em gel.

Aa doação do Fundo Todos pela Saúde foi articulada pelo ISA e direcionada ao Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 de São Gabriel da Cachoeira (AM), município brasileiro com a maior concentração de população indígena. Dos 45 mil habitantes, cerca de 25 mil vivem em comunidades indígenas na floresta amazônica, muitas delas de difícil acesso.

O Fundo Todos pela Saúde é uma iniciativa do Itaú Unibanco, que destinou R$ 1 bilhão ao enfrentamento da pandemia. Um dos conselheiros do fundo é o médico Drauzio Varella, que teve papel primordial na articulação para que parte da doação fosse destinada aos povos indígenas do Alto Rio Negro.

Conhecido como médico e comunicador, Drauzio esteve em São Gabriel da Cachoeira algumas vezes e já declarou sua admiração pela região. No início da pandemia, ele gravou áudios para a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas com informações sobre a Covid-19 e dicas de prevenção. O material foi veiculado no boletim da Rede Wayuri e em carros de som que circularam em São Gabriel da Cachoeira.

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No fim de abril, quando surgiu o primeiro caso de Covid-19 no Alto Rio Negro, Doutor Drauzio nos ligou pedindo que o ISA verificasse a demanda do município por EPIs. Estávamos nos reunindo diariamente no Comitê de Crise da Covid-19 de São Gabriel e fizemos um levantamento com as autoridades de saúde para identificar a demanda. Naquele momento vivíamos uma corrida contra o tempo para apoiar o município a se preparar para enfrentar a pandemia”, contou Juliana Radler, assessora do Programa Rio Negro em São Gabriel da Cachoeira e representante do ISA no Comitê.

As doações do Fundo Todos pela Saúde foram direcionadas aos profissionais de saúde que atuam principalmente em São Gabriel da Cachoeira, mas também seguiram para Santa Isabel do Rio Negro, Barcelos, comunidades Yanomami de Roraima e para os Waimiri Atroari, no Amazonas. Os municípios beneficiados foram fortemente atingidos pela Covid-19.

Conforme dados do governo do estado do Amazonas, até 8 de outubro São Gabriel da Cachoeira já tinha registrado 4.406 casos, com 56 óbitos. Na cidade de Santa Isabel do Rio Negro havia 2.183 registros e 17 mortes. Já em Barcelos, 2.698 registros e 25 mortes.

Desafio logístico

Assim que a doação aconteceu, começou o desafio logístico. Fatores como longas distâncias, dificuldades de transporte e restrições de deslocamento pela pandemia exigiram empenho interinstitucional, coordenado pelo ISA, para entregar os materiais. De São Paulo até Manaus são cerca de quatro mil quilômetros. Nesse trecho, a maior parte foi carregada por um caminhão, contratado pelo próprio Fundo Todos pela Saúde.

Em 20 de julho, o material chegou à capital amazonense. As caixas ficaram estocadas em um galpão da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Cerca de 400 volumes foram distribuídos a instituições na própria capital, sendo destinadas ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei Yanomami) para encaminhamento a Roraima, Associação Comunidade Waimiri-Atroari (Acwa) e Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai) Manaus.

“Percebemos que a doação poderia ser compartilhada também com outras instituições, já que o volume de EPIs era superior ao que foi demandado para São Gabriel. Assim, pudemos contribuir também com profissionais de saúde em Manaus e Boa Vista, que também estavam precisando desses equipamentos”, comentou Juliana.

No dia 22, a equipe do ISA, com apoio da Associação Waimiri-Atroari, transportou as caixas até o porto de São Raimundo, em Manaus. Em 24 de julho, teve início a viagem de balsa pelo Rio Negro até São Gabriel da Cachoeira — uma distância de 800 quilômetros. A viagem dura entre cinco e seis dias, pois a embarcação para em alguns pontos do trajeto para descarregar mercadorias e depende do nível do rio para seguir o percurso.

Os EPIs que seriam entregues no norte foram levados a São Gabriel com apoio de balsa e também de aeronaves da organização ambiental Greenpeace, que atuou desde o início da pandemia no apoio logístico aos povos indígenas e a sociedade civil organizada na Amazônia. “A logística tem essa importância incrível de fazer materiais de informação, EPIs e outros equipamentos chegarem nos lugares mais distantes. Eu acredito muito no que é feito na prática, em quem trabalhou no dia a dia das comunidades para que os indígenas conseguissem se preparar melhor. São pessoas muitas vezes anônimas, mas com ação muito importante”, disse Marcílio de Souza Cavalcante, administrador do ISA Manaus.



Marcílio foi um dos que contribuiu para o sucesso da entrega dos EPIs. “Normalmente, por ano, encaminhamos cerca de 300 volumes do ISA Manaus para o ISA São Gabriel da Cachoeira. De abril a julho, encaminhei seis vezes essa quantidade. Não paramos. O escritório ficou fechado por causa da pandemia, mas continuamos trabalhando”, afirmou.

Depois dessa etapa, a logística passou a ser coordenada pelo administrador do ISA São Gabriel da Cachoeira, Wizer de Oliveira Almeida. Segundo ele, desde o início da pandemia faltavam EPIs na cidade. “Quando o material chegou, a felicidade foi grande, pois tinha bastante. Depois, quando começou a distribuição, as pessoas agradeceram, recebemos carta de agradecimento. Percebemos que terão bom uso. E daí que a gente vê as parcerias funcionando, as pessoas que querem ajudar. Vale a pena correr atrás e suar”, sublinhou. Desde março, Wizer vem acompanhando as reuniões do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, do qual o ISA é membro.



Uma das parcerias essenciais foi com o Exército Brasileiro. O transporte do material entre o porto de Camanaus, que fica a cerca de 50 minutos do Centro de São Gabriel, e a sede do ISA, foi feito por caminhões e o pessoal da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.

O telecentro do ISA, espaço que normalmente é utilizado por estudantes e pesquisadores indígenas e não indígenas, foi adaptado para receber a ajuda humanitária. O local já estava fechado devido à pandemia e serviu como depósito para as caixas.

Mas o desafio não terminou por aí. Nessa última etapa, era preciso fazer o material chegar aos profissionais de saúde que trabalham diretamente com os povos indígenas. Os próprios órgãos beneficiados, o ISA e até comerciantes locais — que cederam veículos — se mobilizaram para realizar a entrega.

Solidariedade multiplicada

Entre os principais órgãos beneficiados pelas doações estão o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e Dsei Yanomami que atuam no território indígena no Alto Rio Negro. Foram encaminhados ao Dsei-ARN 10 mil máscaras descartáveis, 1.200 máscaras respirador (t-750 pff2-s), 40 mil aventais, 10 mil máscaras camada tripla, 100 unidades de protetor facial, 120 unidades de óculos e 100 litros de álcool em gel.



A equipe do Dsei-ARN atua num território de 294,5 mil quilômetros quadrados, atendendo uma população de 28.858 indígenas de 23 etnias, que vivem em 733 comunidades localizadas em área dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Até 9 de outubro, nessa região tinham sido registrados 1.744 casos da Covid-19, com 13 óbitos, conforme levantamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Para o Dsei Yanomami foram destinadas 30 mil máscaras cirúrgicas, 30 mil aventais, 20 mil máscaras e aventais (para Roraima. Dez mil máscaras e aventais foram utilizados em comunidades que ficam em São Gabriel e Santa Isabel do Rio Negro.

Os profissionais do Dsei Yanomami trabalham atendendo uma população aproximada de 26.785 indígenas de cinco etnias que vivem em 366 aldeias localizadas em um território de 96.650 quilômetros quadrados nos estados do Amazonas e Roraima. Também, conforme a Sesai, nessa área foram registrados até 9 de outubro 869 casos de Covid-19, com sete óbitos.

Responsável pela logística no Dsei Yanomami em São Gabriel da Cachoeira, o técnico em enfermagem Mateus de Abreu reforçou que a demanda pelos EPIs se mantém alta. “Essa doação faz uma grande diferença para quem está lá na ponta e beneficia profissionais de saúde e a própria população indígena. Esse material fica em São Gabriel, mas também segue para Santa Isabel, Barcelos e até Roraima”, contou.

Profissional fundamental para o processo da logística, o motorista do Dsei Yanomami Domingos Ferreira Lopes trabalhou na pandemia transportando materiais e pacientes. Ele foi contaminado pelo novo coronavírus, mas não teve sintomas fortes. “A gente faz parte do trabalho de combate à Covid-19. Estamos envolvidos. Cada resgate é importante, é uma vida que está ali”, ressaltou.

Única unidade hospitalar de São Gabriel, o Hospital de Guarnição do Exército (HGU) recebeu 10 mil máscaras tripla camada, 10 mil aventais, 1.200 máscaras respiradores e 12 mil toucas. Outra parte do material foi enviada diretamente para a Brigada, que utiliza os equipamentos de segurança individual em atividades de fiscalização e nos pelotões de fronteira.

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) também foi contemplada, recebendo 2.000 máscaras descartáveis, 100 aventais descartáveis, 45 óculos, cinco litros de álcool em gel e 300 toucas descartáveis. Parte desse material foi repassada à equipe da Fundação Oswaldo Cruz/Fiocruz Manaus, que capacitou agentes de saúde na calha do Rio Içana, em agosto. Além disso, as máscaras estão sendo utilizadas pelos próprios indígenas durante as assembleias eletivas da Foirn, realizadas entre setembro e novembro.



Também receberam os materiais as Secretarias Municipais de Saúde de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. As caixas foram levadas de balsa de São Gabriel da Cachoeira até os municípios.
O Instituto Federal do Amazonas (Ifam) – Campus São Gabriel da Cachoeira foi outra instituição contemplada. Em 8 de outubro, um representante da instituição buscou uma das últimas remessas de equipamentos. Segundo o coordenador de estágios da unidade, professor Anderson Aquino Leiria, o material será utilizado por alunos do curso de técnica em enfermagem que estão retomando os estágios, atividade paralisada no início da pandemia.

São cerca de 25 estudantes que atuarão nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Dsei e Hospital de Guarnição do Exército (HGU). “Tínhamos o material suficiente apenas para uma semana, sendo que o estágio dura cerca de três meses”, comentou. Eles receberam 600 máscaras N95, 500 aventais, mil máscaras de tripla camada, 80 unidades de protetor facial, 20 litros de álcool em gel e 10 unidades de óculos.

Desde o início dos alertas da pandemia no país, o ISA participou ativamente de esforços interinstitucionais para minimizar os impactos da doença, com ações de comunicação, segurança alimentar, apoio à capacidade de atendimento dos serviços de saúde e redução da exposição dos indígenas ao risco de contaminação.

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“Com o dia a dia da operação logística, já estamos acostumados. A diferença é que estamos em meio a uma pandemia e há o receio de pegar o vírus, que age de forma muito diferente em cada organismo. Principalmente no início, houve esse temor, era preocupante sair. Mas organizamos a logística das doações de várias fontes, para fazer chegar esse material em quem está lá na ponta, trabalhando diretamente com o indígena. Muitas vezes é um trabalho invisível, de quem carrega e descarrega esse material. Mas é um trabalho primordial. Valeu todo o esforço”, comemorou Marcílio Cavalcante.

Ana Amélia Hamdan
ISA
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